Docinho da América, de Andrea Arnold

Os adolescentes de Andrea Arnold não se explicam. Apenas se movimentam, de um lado para outro, em viagens intermináveis sob as ordens de uma superiora, também jovem: eles devem vender, e aprendem essa necessidade pela música em volume alto.

A música de batidas fortes indica o desejo, a necessidade do consumo, de dinheiro. Eles dançam aos olhos da bela Star (Sasha Lane), a protagonista que pede distância, tão alheia aos efeitos de seus atos quanto os outros brincalhões de Docinho da América.

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Toda essa aventura – sobre jovens que viajam pelos Estados Unidos vendendo assinaturas de revistas – é o que importa. Não a venda ou o dinheiro, não a possibilidade de trabalho e talvez de ganhar algo no fim do caminho. Não por acaso, termina não tão distante do ponto de partida, com Star em um lago, em plena escuridão.

Lane tem desejo e piedade. É dúbia. Não é difícil entender por que Arnold escolheu-a para viver a personagem central, a quem quase tudo parece estranho e é digno de experimentação, talvez para não fazer nada e de quebra ganhar uns trocados.

Ela será capaz de entrar em carros diferentes, de homens diferentes, alguns exploradores, outros ainda a sonhar, para fugir do local em que estava: ela talvez não tenha forças para dizer que deseja não estar ali e escapar – ou talvez nem saiba.

O que leva à viagem é Jake (Shia LaBeouf). O melhor vendedor entre todos, estranhamente sedutor, de sorrido natural, com roupas sociais que contrapõem os contornos jovens de quem será visto a trombar com todos, a escalar veículos, a dançar sobre o caixa do supermercado e pular fogueiras ao fim.

Como ela, e como todos, ele emite esse efeito infantil. A todos, o dinheiro vem pela imagem da aparente América fácil, entre bairros ricos e pobres. Terão de explorar cada morador, a cada um contando uma mentira diferente, sempre a esconder quem são.

Nem o espectador saberá: Star começa no interior de um latão de lixo, no qual procura alimentos para duas crianças que cria. São filhos de outra mulher, do homem com quem ela vive. Não consegue mais tocá-lo e resolve fugir pela janela, com mala nas costas.

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Cai na estrada com o grupo de jovens vendedores. Jake ensina mais do que vender: o jovem esperto mostra como funcionam as regras dessas viagens e suas descobertas, o mundo de casas belas e famílias aparentemente perfeitas, ou o oposto: casas pobres de crianças próximas a uma mãe drogada, jogada no sofá, mais morta que viva.

Da janela do veículo os jovens observam os prédios altos, as torres de petróleo, como se tudo estivesse à mão, a ser agarrado, ao mesmo tempo distante. Arnold mostra a sedução de um país de extremos, compõe um filme realista. A impressão é que algumas figuras vistas há décadas em Sem Destino ainda continuam ali, intactas.

Outro road movie sobre a descoberta de uma (outra) nação. Sobre surpresas, no qual a violência vem a conta-gotas, sem explicação, e no qual a ainda terna Star leva pequenos insetos e animais de volta à natureza – representação de seu desejo de liberdade.

Novamente em tom realista, Arnold retoma a história de choques de uma jovem sonhadora, como se viu em Aquário. O espectador pode até não entender sua pequena heroína de rosto sofrido. Difícil é não se deixar levar, torcer por ela, ou até amá-la.

(American Honey, Andrea Arnold, 2016)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Aquário, de Andrea Arnold

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