Animais Noturnos, de Tom Ford

Os animais noturnos são também frágeis e covardes. São humanos, diferentes dos seres bestiais que matam, esquartejam, estupram, os seres comumente apontados como “selvagens”. A descoberta é feita por meio de um livro dado a uma bela mulher.

Ela, Susan Morrow (Amy Adams), é a peça central de Animais Noturnos, de Tom Ford. É quem vê, a tantas horas lendo o livro do ex-marido, um pássaro negro colidir contra seu vidro: a morte do animal noturno e inocente, que mal algum pode causar.

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Olha o pequeno bicho, no escuro, nessa noite feita de lembranças e banhos para se limpar, e constata que talvez não haja explicação para a selvageria ou para a morte. A ideia por trás da obra de Ford, sua segunda, é interessante, dá a tônica de tudo o que vem a seguir: uma história de violência da qual a mulher não pode escapar.

Pois julgava o ex-marido um homem fraco. Ele é vivido por Jake Gyllenhaal, ator que pode ser tão meigo e amável quanto demolidor, como foi em O Abutre, pouco antes. Pois Gyllenhaal será o marido das lembranças e a personagem central do livro.

Nas lembranças, chega a ser tão bom e cativante que talvez não preste: não demora nada para o espectador perceber o que faz Susan descartá-lo – e descartar o que dele carrega em seu interior. O aborto fala por si só: Susan retira esse homem “perfeito” de dentro dela, em um meio no qual seres perfeitos inexistem.

A história do livro, para a mulher, é um assombro, uma revelação. Seu antigo marido, o criador, leva com ele o que há de selvagem. Está no livro, não exatamente nele. O que explica seu desejo em revê-lo, em ficar horas, se preciso, à sua espera – em encerramento menos abrupto do que parece, mais explicativo do que se imagina.

O animal que espera é parte do livro, chamado justamente Animais Noturnos. Seriam as personagens também parte de seu autor? Pois os assassinos, se a resposta for afirmativa, deixam ver o que não faz sentido, pelo menos àqueles que ainda creem na civilização.

Esses assassinos abordam a família, à noite, em uma estrada à beira do deserto. São seres cuja maldade não tem sentido. Ou o sentido que aponta apenas ao ato gratuito: matam por matar, pelo prazer do sofrimento, e sufocam a busca por explicações.

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O homem que perde a mulher e a filha (também interpretado por Gyllenhaal) questiona o que o torna impotente. Frente a frente com os criminosos, ele ainda recua, tem dificuldades para puxar o gatilho: é a esperança, difícil crer, para um universo de estradas que levam a pequenos e malfadados cômodos, à mesma sujeira, às mesmas faces – o policial à beira da morte, o assassino de olhos claros.

O segundo filme de Ford realiza-se na junção de tempos e ambientes, entre o que é real e parece tão falso – a grande casa e as galerias de arte de Susan – e o que é fictício e se revela palpável – o livro que ela recebe, certo dia, e que é para ela dedicado.

O ex-marido que não retorna lança à mulher um aviso: como ele já dizia, sem lhe desejar mal, Susan tornou-se réplica da própria mãe, com seu casamento de aparência, com sua maquiagem pesada, em ambientes nos quais o feio – ou o que é assim considerado – é celebrado.

Ela própria seria um “animal noturno”, como diz o ex. O livro é a amostra desse universo em que o belo e o selvagem confundem-se, o país dos caubóis, dos assassinos em série, dos selvagens que não apenas vivem à margem, mas também no interior.

(Nocturnal Animals, Tom Ford, 2016)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
A Chegada, de Denis Villeneuve

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