Basquete Blues, de Steve James

Transpor a barreira do gueto é a principal dificuldade dos dois jovens negros apresentados em Basquete Blues. O esporte praticado por ambos serve de pano de fundo. O drama, com os problemas emocionais e certa politicagem, ganha a frente.

Os jovens sonham com a NBA. O sonho de se tornar, quem sabe, um novo Isiah Thomas ou Michael Jordan. Para ambos, e para muitos outros, é a oportunidade de ascensão. O documentário acompanha por anos essa busca. O resultado é magnífico.

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O trabalho de Steve James pretende aprofundar uma questão íntima à sociedade americana, espelhada em seu cinema: a fixação pelo sucesso, pela vitória, e pela derrota – à qual é importante mergulhar quando se pensa na vitória seguinte.

Muitos filmes saíram em busca desse material. E, ao rejeitarem a perda, transformaram a ficção – que não deve ser diminuída, é verdade – em uma ideia “real”, a ser perseguida ou tomada como exemplo. A imagem da vitória, da redenção.

As várias vezes em que os técnicos gritam com seus jovens, ou quando parecem carrascos em quadra, andando de um ponto ao outro, dão ao filme de James algo irreal: vê-se nesses homens uma forma observada em filmes ficcionais. Não é necessário ir longe para recordar o Gene Hackman de Momentos Decisivos, por exemplo.

É o jeito do técnico mandão e militarista. Os jovens são outra coisa: quase sempre tímidos, sonhadores, depois levados à triste realidade, aos contornos que não incluem a tão esperada vitória e o sucesso no fim do túnel – não da maneira sonhada.

Portanto, antes das relações com o basquete, o filme de James leva à relação com a vitória e a perda, com os moldes de uma sociedade, com as diferenças entre ricos e pobres, entre brancos e negros, entre comunidades, sob o trauma de apostar e perder.

Em quadra, alguns minutos mudam uma vida toda. Na arquibancada, o pai de um dos garotos recebe o representante de uma faculdade, interessado em arrebanhar seu filho. Os meninos, William Gates e Arthur Agee, são promessas de sucesso no basquete.

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Durante anos, ao acompanhá-los, James registra também diferentes olhares: antes, ainda próximos à infância, eles não escondem o jeito sonhador, o fã pregado aos cartazes das estrelas, aos lances na televisão. O espetáculo ronda essas cabeças. Depois, ao fim, Gates vem à tela para confessar não ter mais sonhos. Mudou tudo para ele.

É também o custo da vida adulta, da desilusão. O espectador, durante essas trajetórias, será questionado sobre as regras do sistema e se este é justo. O filme não traz respostas fáceis. Evidente, no entanto, que os jovens atletas só conseguiram ultrapassar a barreira do gueto e frequentar uma faculdade após se tornarem bons jogadores.

A não deixar escapar, ao fim, o olhar de dúvida de Arthur, um entre muitos momentos preciosos, quando está prestes a aceitar a proposta de uma universidade. Ainda que tentem escapar do basquete, este não escapa desses jovens de jaquetas coloridas.

Basquete Blues é extraordinário em sua busca pelos detalhes, pelo que parece trivial e, por consequência, pelo que constitui a verdadeira essência desses meninos. Entre um lance e outro, eles mostram força ou imaturidade. Não precisam recorrer às palavras.

(Hoop Dreams, Steve James, 1994)

Nota: ★★★★★

Veja também:
A vida submersa nos documentários de Gianfranco Rosi

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