O Apartamento, de Asghar Farhadi

Momentos de violência ou grande tensão são evitados pelo cineasta Asghar Farhadi. É o caso da sequência em que uma mulher é atropelada em A Separação, ou quando outra é agredida por um invasor, no banheiro, a certa altura de O Apartamento.

O diretor iraniano volta-se aos efeitos, não ao ato. Prefere a forma como as personagens lutam para juntar os cacos, para restituir o que parece impossível. No encerramento de A Separação, a distância entre seres, em um mesmo plano, parece dar conta da resposta: a união é impossível. Os cacos seguem ali.

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O mesmo se vê na parte final de O Apartamento, cujas personagens separam-se em planos diferentes, voltadas a seus espelhos, sendo maquiadas para uma apresentação teatral: homem e mulher em seus respectivos papéis, impassíveis, distantes.

Pois o papel que vivem, nesse ponto, não lhes permite o diálogo. Impõe distância. No belo filme de Farhadi, eles talvez só consigam se despir de suas limitações nos limites do palco, quando a ficção permite exposições do drama a dois (ou de mais seres), em uma adaptação de A Morte do Caixeiro Viajante, de Arthur Miller.

Filme sobre papéis, dentro e fora do teatro. A mulher violentada é Rana (Taraneh Alidoosti). O agressor teria ido ao local atrás de outra mulher, considerada pelos vizinhos como “promíscua”, talvez uma prostituta. Mas Rana, ao lado do marido Emad (Shahab Hosseini), alugou o apartamento e, por isso, terminou agredida.

O momento é ocultado. Ela deixa a porta aberta ao imaginar que o marido estava chegando. Termina com um corte na cabeça, traumatizada, impedida de ficar sozinha no mesmo local pelos próximos dias. Seu marido tenta descobrir quem é o responsável.

É Emad a personagem central. Ele cogita ir à polícia, mas não deseja que todos saibam que sua mulher foi violentada. Em uma sequência exemplar, ao encontro do que trata o filme, Emad retorna para casa, em um táxi, quando uma senhora ao lado pede para mudar de banco, pois o homem estaria encostando demais em seu corpo.

A repressão é silenciosa. Vive antes nessas personagens, atores em outro palco, no espaço real do apartamento – ou dos apartamentos – cuja luz, perto do fim, remete justamente às dimensões do teatro: a luz artificial sobre sofás, em um espaço vazio.

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Ainda nos primeiros instantes emerge o palco. Emad e Rana dividem a mesma peça. Situações da obra de Miller encontram estranho eco na vida real de Farhadi, ainda que se evite toda a exposição. O homem quer saber a verdade (a identidade do agressor) por conta própria: torna-se um vigilante, seguindo o veículo do criminoso.

E quando a identidade vem à tona, o mesmo Emad percebe que seguir em frente não será como em uma típica história de suspense e vingança. Retorna, nesse ponto, o velho apartamento em que vivia o casal, com paredes e vidros rachados. Espaço um pouco fantasmagórico do qual o espectador torce para escapar mais e mais.

Emad também é professor. A certa altura, ele toma o celular de um aluno que o fotografava, em uma sessão de cinema, enquanto dormia. Farhadi não deixa ver o que há no celular. Há a impressão de que garoto esconde segredos. Todos têm os seus.

Faz pensar, de novo, em A Separação: como o anterior, O Apartamento é sobre seres destinados a confrontar o que há sob a superfície, a aparência de tranquilidade que parece reinar nesse apartamento, nesse palco (o texto controlado) e em outros espaços nos quais rostos comuns emitem instintos de desconfiança, medo e vergonha.

(Forushande, Asghar Farhadi, 2016)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
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