O Vale do Amor, de Guillaume Nicloux

A experiência do deserto deixa marcas no corpo do casal de O Vale do Amor, de Guillaume Nicloux. É uma experiência que talvez envolva o espírito do filho morto do mesmo casal que há anos não se encontra, levado então àquela viagem.

São franceses nos Estados Unidos, sob o sol escaldante do Vale da Morte, na Califórnia, com rochas e trilhas de terra. Encontram-se ali por vontade do filho morto. Antes de se suicidar, ele deixou uma carta pedindo que os pais fossem ao local.

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Na mãe, a marca permanece nas pernas. No pai, perto do encerramento, marcas são vistas nas mãos. Aos mais descrentes, esses sinais de um espírito podem ser vistos como reação alérgica àquele ambiente quente e distante. Nicloux não deixa respostas fáceis: a experiência mística mescla-se ao ambiente rochoso, à aparência física.

A história por trás do casal é contada aos poucos. Salienta-se: a história que viveu, o passado que não teve, o filho que não criou como deveria. Talvez não tenham sido pais exemplares. Restam do rapaz duas cartas endereçadas aos mais velhos, com instruções precisas sobre os dias e as passagens pelo Vale da Morte.

Tampouco se saberá por que o local escolhido é aquele. Por ali, Isabelle Huppert e Gérard Depardieu talvez sejam os próprios, atores estrangeiros tendo de viver um papel real, confrontar o passado, ou mesmo a experiência mística da qual desconfiam.

É ele, sobretudo, que mostra dúvidas sobre a presença do espírito do filho. O homem grande – muito maior que a raquítica Huppert – duvida que o rapaz retorne. Mais do que um encontro com espírito, o filme dá vez aos humanos, ao casal que não se via há muito tempo, à prova de que verdadeiros espíritos nascem do passado.

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Ele reclamará do calor o tempo todo. Foge ao ar condicionado do carro, desfila sem camisa pelos ambientes externos. Ela tentará contato com sua outra família, o tempo todo, contra o fraco sinal do celular. Ambos tentam se desviar do objetivo da viagem.

São os mais velhos, feitos de carne e osso, que custam a se entregar àquela experiência, àquele momento único. Com ou sem espíritos, eles tentam agir como manda o papel desejado: são turistas de um lado para o outro, entre o prazer do desconhecido e o problema de encarar, talvez, o velho espírito do passado: o filho.

Encará-lo significa tentar contornar problemas, aceitar erros e, quem sabe, seguir em frente. Décadas depois do fantástico Loulou, de Maurice Pialat, o casal de atores volta a se encontrar e ainda prova que há química de sobra. As diferenças físicas não importam aqui. São seres verdadeiros, carregados de um drama que às vezes excede.

(Valley of Love, Guillaume Nicloux, 2015)

Nota: ★★★☆☆

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