O Enigma de Outro Mundo, de John Carpenter

A criatura alienígena de O Enigma de Outro Mundo não tem forma definida. Ela pode ser qualquer um, reproduzir o corpo, a imagem, uma cópia, um disfarce, e por isso é ainda mais aterrorizante. É tudo e nada, confundindo os homens que a enfrentam.

Mais do que criaturas estranhas, junções de corpos sobre tripas e melecas ao chão, o que causa medo no grande filme de John Carpenter é a impossibilidade de ver o inimigo. A isso se soma o isolamento, semelhante ao de Alien, o Oitavo Passageiro, lançado em 1979, três anos antes. Um no espaço, o outro na Antártida.

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Os homens da história, pouco ou nada heroicos, sofrem com o frio, com o isolamento. Não há mulheres. Há animais, como o cão que corre pela neve, na abertura, sob a mira do atirador norueguês em um helicóptero. O animal deve ser morto porque carrega o alienígena, pronto para se instalar em outra base. Nesse caso, a americana.

O cão sobrevive, o alienígena também. Não demora e começam a brotar situações estranhas, mais tarde grotescas. Homens (nem todos com o vírus) começam a morrer. Reação em cadeia à presença do diferente: esses homens são convertidos em seres selvagens, sem saber ao certo como lidar com a situação.

Se em Alien a mulher é a sobrevivente, esperança ao renascimento em uma nave pelo espaço escuro, Carpenter prefere o encerramento aberto e amargo: há dois homens vivos, sem a menor ideia se podem contar com o outro. E há o frio, o ambiente.

Para além do vilão amorfo há o clima de suspense. Ponto alto, sem dúvida, além da velocidade, das ações estranhas e da impossibilidade de se apegar a qualquer uma das personagens, desses companheiros. Poucas brincadeiras ou intimidades dão ideia da relação entre eles; ao contrário, desfilam ordens, tiros, desconfiança, ódio constante.

A regra é sobreviver – ao monstro, aos colegas, ao clima. Filme de atmosfera maldita, de cenários frágeis, de fogo constante, de efeitos visuais que hoje podem retirar risadas fáceis da ala mais jovem, mas que não pretendem nunca encerrar as ações.

À frente do grupo está MacReady (Kurt Russell), de credenciais obscuras, figura sem carisma. A certa altura, para descobrir qual dos companheiros possui o monstro dentro de si, ele amarra alguns e volta a arma a outros.

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O excesso de personagens aumenta as dúvidas. Qualquer uma pode ser o monstro, ou estar próximo a gestá-lo. Uma representação da impossibilidade de compreensão do outro, da desconfiança, do medo. Todos são monstros em potencial.

Caso o alienígena sobreviva àqueles homens, poderá colocar o mundo em risco. Um das personagens sabe disso e chega a calcular a velocidade do contágio, não sem enlouquecer: passa a quebrar os veículos, os comunicadores, qualquer máquina à frente.

Entretenimento adulto, sem respostas claras e figuras atraentes. Carpenter, a partir do roteiro de Bill Lancaster, retoma a história de John W. Campbell Jr., levada às telas em 1951 por Christian Nyby e Howard Hawks no também ótimo O Monstro do Ártico.

O clássico – feito sob o clima da Guerra Fria, sobre os riscos de um “estrangeiro” indesejado – apresenta o monstro e os heróis. A versão de Carpenter prefere a dúvida, a situação em que todos deixam ver algo monstruoso, com ou sem o alienígena.

(The Thing, John Carpenter, 1982)

Nota: ★★★★☆

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