Ninfomaníaca: Volume 2, de Lars von Trier

Na segunda parte de Ninfomaníaca, a busca irrefreável por sexo torna Joe uma mulher à margem. Em uma das passagens do filme, sua chefe pede que ela procure ajuda em um grupo voltado para ninfomaníacos, no qual todos falam um pouco sobre si.

Joe sofre cada vez mais. Nada a alivia. Sua dor é interminável, incompreensível, e seu destino é trágico: quanto mais ela pode ter (sexualmente), menos parece receber (dos outros). Joe é rejeitada. “Entendi que a sociedade não tinha lugar para mim, e eu não tinha lugar para a sociedade”, ela define, o que ajuda a explicar Ninfomaníaca.

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A primeira parte da obra de Lars von Trier apresenta a personagem em um beco, caída e violentada. A questão: como ela chegou àquela situação? Joe é descoberta por Seligman (Stellan Skarsgård), homem inteligente, intelectual assexuado, que lhe dá abrigo e ouve a história de sua vida durante uma noite.

A relação entre ambos é de aproximação e exclusão ao mesmo tempo. Seligman age de duas formas: ao mesmo tempo um confidente, ele reproduz o oposto à ninfomaníaca. Ela segue à questão física, ele à intelectual.

Vivida por Stacy Martin na juventude e por Charlotte Gainsbourg na maturidade, Joe relata sua dor ao se tornar frígida. Essa quebra ocorre entre o fim da primeira parte e o começo da segunda. A ninfomaníaca perde justamente o que confere significado a sua existência.

Ela continua com Jerôme (Shia LaBeouf), com quem tem um filho. Mais tarde, fracassará em seu papel de mãe. Seus desejos são mais fortes e desfazem a imagem da típica família. À frente, Joe buscará prazer por outras vias – pisando, às vezes, em terreno desconhecido.

De ninfeta sexualmente cobiçada, com diversos parceiros com os quais brincava incessantemente, Joe passa à mulher amargurada, em busca de respostas – o que Seligman parece incapaz de responder.

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A segunda parte traz detalhes sobre esse homem estranho, uma quase biblioteca viva. Tanto na primeira quanto na segunda parte, Joe encontra os pontos de partida de sua história em objetos do quarto de Seligman. Só assim encontra sua continuidade.

Suas histórias levam ao momento em que encontra uma árvore entre rochas. A árvore é sua representação, sua condição: tentar sobreviver em uma sociedade que a reprime. Nessa luta, acaba se envolvendo com o crime organizado, transforma-se em perfeita torturadora e está cada vez mais distante, à margem. Todos estão contra Joe, contra seus desejos, todos escondem algo imprevisível e ela, ao que parece, é a única figura verdadeira. E, por isso, condenada à incompreensão.

A palavra é tão importante quanto o sexo. A palavra ajuda a revelar uma sociedade politicamente correta. Nova observação da protagonista: “Enaltecemos aqueles que dizem o certo, mas desejam o errado. E zombamos daqueles que dizem o errado, mas desejam o certo”.

Aos olhos da sociedade, Joe segue o caminho inaceitável. O beco que abre a primeira parte é seu destino natural, ambiente em que a vida ainda brota, como uma árvore seca entre rochas.

(Nymphomaniac: Vol. II, Lars von Trier, 2013)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Ninfomaníaca: Volume 1, de Lars von Trier

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