Ninfomaníaca: Volume 1, de Lars von Trier

A impressão é que nada é por acaso no universo de Joe (Charlotte Gainsbourg), a protagonista de Ninfomaníaca: Volume 1, do diretor Lars von Trier. Esse universo pertence à personagem, encontrada em um beco, certa noite, e violentada por motivos não explicados.

Se há alguma naturalidade no tratamento da câmera, que chega a perder o foco e treme com constância, o mesmo não se pode dizer do universo criado – ou relembrado – pela mesma mulher ao centro da história, a ninfomaníaca do título.

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Não é necessariamente um filme sobre sexo. O diretor, como em outros de seus longas, lança a personagem a um labirinto no qual as andanças sempre levam ao mesmo ponto, como parece ocorrer nas passagens de Joe por um bosque.

Ali, a certa altura, ela encontra partes de uma fotografia rasgada. Pega os pedaços pelo chão, une-os, reconstrói a foto de um velho amor. Como em um passe de mágica, o homem reaparece. Constata-se então brincadeira de von Trier: sua protagonista, ao criar essa história, assume ser a única dona desse universo.

O sexo está ao centro, é verdade. Faz a mulher movimentar-se. Na juventude, Joe é interpretada pela sempre impassível Stacy Martin. Suas reações mais explosivas ocorrem quando faz sexo. E faz muito – com diversos homens, em diversos locais, em uma única noite, apenas para jogar ou passar o tempo.

O filme volta-se primeiro à menina atrevida, ao sexo como descoberta, como aventura. Vai da infância à juventude, da perda da virgindade aos encontros noite após noite, em trens, em apartamentos, até mesmo no hospital – quando seu pai (Christian Slater) delira, agoniza e morre.

A morte, como o gozo, dá-lhe prazer. Antes, quando começa a contar sua história para Seligman (Stellan Skarsgård), o homem que a encontrou violentada e desacordada no beco, ela explica ser uma pessoa má. O diretor associa o sexo não meramente à maldade, mas a uma busca pelo prazer como contraponto ao amor. Além disso, a sociedade finge, atolada em hipocrisia, não compreender o sexo isolado, o que ficará nítido na segunda parte.

Joe foge quando uma amiga fala sobre a importância do amor ao sexo. À frente, quando mostra algum sentimento – ou algo mais sério – pelo chefe (que tirou sua virgindade), a moça reluta em fazer sexo com ele. Como outras personagens de von Trier, ela é fadada à dor.

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Nesse meio, o diretor insere números na tela, corta-a em partes. Tais efeitos dirigem ideias e mais ideias à história física da mulher e seus desejos. O filme pretende evocar uma experiência de detalhes, em que números dividem espaço com sêmen que escorre pela boca.

Ninfomaníaca: Volume 1 é uma obra forte. Na tela, contudo, fica certo vazio – o que pode ser explicado pelo encerramento abrupto e pela espera de respostas que pertencem à sua continuação.

Os números, os encontros, as coincidências e as histórias evocadas por Seligman são artifícios para acreditar que nada, no fundo, é por acaso na vida de Joe. Ou que tudo na vida está aberto à associação, à compreensão. Mas será assim no campo sexual?

No sexo, Joe revela sua existência, sua busca, seu vício. Viver é se viciar em algo, é se deixar levar contra as prisões da sociedade. Ela não firma compromissos e tem diferentes homens. Para piorar, não explica ao espectador quem é e o que deseja.

Ao fim, cada um dos amantes é uma peça. Em um extremo, o submisso; em outro, o caçador; ao meio, aquele que deveria trazer partes dos outros dois e satisfazê-la por completo. É como tocar piano: há três partes que dão harmonia, que dão luz ao homem esperado. Ainda assim, o prazer total é incerto.

(Nymphomaniac: Vol. I, Lars von Trier, 2013)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Ninfetas (em 15 filmes)

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