Um Dia Quente de Verão, de Edward Yang

Os jovens revelam certa infantilidade quando se reúnem em gangues. A princípio, não são levados a sério. Mais parecem adolescentes tentando se afirmar – o que, no fundo, não deixam de ser em Um Dia Quente de Verão, de Edward Yang.

A violência, intrusa, emerge nessa obra-prima. Até mesmo os gestos brutos, como a tragédia final, possuem doses de sensibilidade. O que ocorre é sério, e é uma das abordagens dessa história comovente. Culmina na sequência da chacina noturna, momento em que um dos grupos ataca o inimigo para vingar a morte de um líder.

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Como outros filmes vindos da nova onda do cinema taiwanês, o painel impõe-se, com várias personagens e o paralelo entre questões sociais e humanas, entre grupos e histórias menores, com a câmera voltada, por exemplo, ao menino com sua lanterna roubada, com seu diário sobre o qual lança passagens da própria vida.

Nesse sentido, a violência não é apenas o contraponto: é a parte estranha, deslocada, ou mesmo a parte que vive nesse garoto – revelada ao fim. Ele, Xiao Si’r (Chen Chang), divide o tempo entre os amigos, sua gangue, e a menina que passou a amar.

Um Dia Quente de Verão é sua história. Os outros passam por ele. São indissociáveis. Ao diretor Yang, servem também para explicá-lo, como o pai intelectual e perseguido pelo governo nacionalista, a mãe que se considera ocidentalizada, o irmão que ora ou outra se envolve com criminosos, a irmã cristã que tenta levá-lo à igreja e, claro, a moça que ama e que já teve casos com outros meninos, incluindo os amigos.

Ainda que não ocupe grande espaço, o questionamento de Si’r sobre o sentido da vida faz-se sentir: a impressão é que ele desistiu de seguir regras, o que, mais uma vez, leva-o à violência. O resultado é sua expulsão da escola e o final dramático.

A menina, Ming (Lisa Yang), tem o rosto achatado, cabelos lisos e curtos, de aparência sempre distante: pode dizer coisas profundas e, em seguida, surpreender o espectador. Não é possível saber o que sente ou o que deseja. Ao dar as respostas que Si’r não esperava encontrar, ao fim, sobre o que esperar dos outros, faz o companheiro desabar.

O filme trata da juventude sempre inconstante, nunca bestial ou caricata. Yang evita a aproximação desnecessária, tenta resolver o drama sempre com planos longos sem cortes entre cenas. Resulta em rara beleza.

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O tempo é tratado com respeito. Por consequência, o drama. São quase quatro horas que não se deixam sentir: é singelo, leve, no qual nem a violência impede reações impensáveis, transformações, como o momento em que o protagonista resolve largar a pedra que lançaria contra um homem para em seguida socorrê-lo.

Painel real de indefinições, entre a escuridão e a luz que surge de repente. Não por acaso, a primeira imagem mostra uma mão apagando a lâmpada. E quando Si’r revolta-se, na escola, é uma lâmpada que ele estoura para mostrar sua fúria.

Na noite da chacina, a luz vai e volta. Noite de tempestade, de apagão, quando uma das gangues veste chapéus e capas de chuva, em suas bicicletas, como velhos samurais com espadas em busca de vingança. Atacam os outros. A câmera de Yang não busca mostrar tudo. Ao contrário: o que se vê são flashes rápidos entre a escuridão, gritos de dor.

O horror encontra-se entre tanta beleza. Yang questiona a partir de extremos, dessa sociedade de tipos diferentes. Nela, a pequena brincadeira divide espaço com o que há de mais brutal, como no momento em que Ming diverte-se com uma arma de fogo e acaba atirando na direção do companheiro, para o susto de todos.

O cansaço da escola – ou do mundo real – leva os meninos ao estúdio de cinema. Refugiam-se ali, assistem às filmagens. Yang foca o movimento da juventude, a beleza inexplicável, a distância das relações e dos gestos, a lágrima perdida que não é fruto de interpretação. Os jovens, aqui, são sempre verdadeiros.

(Gu ling jie shao nian sha ren shi jian, Edward Yang, 1991)

Nota: ★★★★★

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