Os Terroristas, de Edward Yang

A ideia comum sobre terroristas é subvertida pelo cineasta taiwanês Edward Yang. Os cenários são repletos de frieza, há distância e, à frente, o quarto escuro serve ao confinamento de duas personagens, à sombra com suas fotografias.

Em Os Terroristas, diferentes histórias pouco a pouco se tocam. As personagens estão dispostas em uma cidade quadriculada, de cotidiano mecânico, sob o veludo estranho da vida confortável: o marido que almeja se tornar chefe em sua empresa, a esposa que busca escrever seu livro de contos e talvez ganhar um prêmio.

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O drama evidencia-se na situação desse casal. Estão à beira da ruptura. Ela, que não consegue escrever, acaba encontrando consolo em um antigo namorado; é sua forma de tocar o passado, de corrigir, quem sabe, algo que perdeu.

Ele, decidido a galgar alguns degraus na empresa, termina por entregar um amigo quando outro colega de trabalho morre de infarto. Torna-se candidato natural à vaga, ao mesmo tempo em que finge, entre amigos, estar em bom momento com a mulher.

Os Terroristas simula uma vida inexistente, de centros comerciais e propagandas, de prateleiras e vidros vazios, como no cenário em que a mulher encontra seu amante – espécie de espaço futurista, opressor, como saído de uma ficção científica.

As ruas são escuras. O terror vive no meio, mais que nas pessoas. A certa altura, compreende-se que os terroristas são aqueles que aceitaram viver ali, ou que condicionaram os outros a tal meio, com a cidade, Taipei, vista do alto, pelos prédios, com o som das sirenes, das balas de um confronto entre policiais e criminosos.

Desse confronto surge uma nova história, momento em que um jovem fotógrafo acompanha a ação policial: volta seu instrumento de trabalho, sua “arma”, a máquina fotográfica, à bela criminosa, à jovem de cabelos curtos que foge mancando pela viela.

A fotografia persegue-o, ainda que não fale sobre ela. O espectador entende quando ele deixa seu apartamento apenas com a máquina fotográfica, seu maior bem. O fotógrafo é atraído ao apartamento no qual estava a criminosa e fugitiva, mas antes à sua imagem, possivelmente refletida naqueles espaços. A fotografia desafoga-o.

Contra a vida estranha de prédios, de frieza, contra as pessoas que cruzam, de um lado para outro, uma ponte – enquanto ele flagra-as a distância, com sua lente.

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No apartamento, o garoto fecha-se no escuro. A foto da garota desconhecida ocupa quase toda a parede. Sobrevive a esse fechamento. Quando a janela é aberta, mais tarde, o vento bate em suas “partes”, em seus “recortes”, com o rosto que se desconstrói e retorna à integridade momento a momento.

A criminosa retorna ao imóvel. O rapaz convive com ela apenas algumas horas. Ele entende que não pode confiar na moça, que continua pelas ruas, a aplicar golpes – alguém autêntica se comparada às demais figuras em destaque. Para Yang, ela é produto do terror urbano, dessa vida moderna e descontrolada.

As personagens voltam a se tocar. A garota passa um trote na escritora, que passa a acreditar na possibilidade de o marido ter uma amante. A ligação telefônica também a leva a escrever, a encontrar o caminho para sua história. Refugia-se na ficção.

O marido passa a crer que a história escrita pela esposa pode explicar o divórcio. Ela insiste no oposto: é melhor não misturar ficção e realidade. Falta ao homem essa lucidez, preso como está àquela vida sem beleza, de silêncios e espaços gélidos.

(Kong bu fen zi, Edward Yang, 1986)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
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