In Our Time (quatro diretores)

As quatro partes de In Our Time tratam de histórias distintas, da infância ao início da vida a dois. Entre esses dois tempos, quatro cineastas de Taiwan apostam em instantes, em pequenos momentos.

A aparência de algo maior, como a descoberta do primeiro amor, do desejo, do sexo, é recoberta pelo pequeno detalhe, pelo gesto passageiro, pela música. Aos olhos das personagens, o mesmo mundo torna-se estranho e impessoal. As quatro histórias ainda permitem ligações, mesmo com personagens com quase nada em comum.

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Na primeira, Cabeça de Dinossauro, tem-se o universo inocente das crianças, com o garoto incompreendido pelos pais, lançado de canto a canto, apenas na companhia de seu dinossauro de plástico. A segunda, Expectativas, é sobre uma garota durante a puberdade, com olhares curiosos ao peito nu de seu novo inquilino, um estudante.

O Pulo do Sapo, a terceira, leva o filme ao campo da comédia. O rapaz ao centro não é levado a sério pelos amigos e, como o menino da primeira história, corre entre os estudantes para não deixar a bela menina escapar ao seu campo de visão.

A quarta é a mais engraçada, a mais livre, toda calcada em instantes, nas poucas horas em que um homem fica preso para fora de seu apartamento. Recém-casado, ele tem apenas uma toalha para esconder o corpo – e contra ele há o cachorro do vizinho e os estranhos das ruas movimentadas de Taipei, repletas de prédios e veículos.

Os cineastas Tao Te-chen, Edward Yang, Ko I-Chen e Yi Chang fazem parte do chamado cinema novo de Taiwan, com histórias livres e clima realista. Dos quatro, o nome mais conhecido é Yang, que se tornaria famoso fora do país com obras como As Coisas Simples da Vida e à frente do segundo segmento de In Our Time.

Esse cinema de renovação teve influência externa, depois que as autoridades taiwanesas da época, do Partido Nacionalista Chinês, permitiram que seus artistas retratassem o cotidiano comum da nação – o que trouxe reflexos primeiro à literatura, depois ao cinema. A ideia era buscar prestígio internacional e abrir novas relações diplomáticas.

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Dois grandes nomes brotam desse período: o já citado Edward Yang e o genial Hou Hsiao-hsien. Ironicamente, a abertura governamental para a exposição da verdadeira vida em Taiwan permitiu que esses realizadores criassem um cinema de traços particulares, migrando sem muita demora da narrativa aparentemente clássica e ocidental a uma estrutura rigorosa no tratamento do tempo e das personagens.

In Our Time, com quatro histórias despretensiosas, representa o marco inicial desse cinema, com odisseias, relações entre adultos e crianças e a exposição da nova vida urbana taiwanesa feita de toques cômicos.

Em Expectativas, por exemplo, a menina deixa-se compreender pelo olhar voltado ao espelho, pela busca de suas formas (a puberdade), ou mesmo pelas perguntas feitas à irmã mais velha, que não responde. Maneira de Yang revelar – como no primeiro episódio, de Te-chen – o isolamento. O olhar da juventude é central: são seres cheios de emoção, com poucas palavras, cujos pais não dão a mínima a seus anseios.

O mesmo se vê na terceira parte, igualmente sobre um rapaz cheio de sensibilidade que ora ou outra é confrontado pelo mundo bruto. A sequência na qual retira a flor presa na porta do elevador resume a obra; é alguém a caminhar por trás dos outros, que precisa saltar entre eles para entrar em cena, para ser visto, um invisível a ser descoberto.

(Guang yin de gu shi, Tao Te-chen, Edward Yang, Ko I-Chen e Yi Chang, 1982)

Nota: ★★★☆☆

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