A Chegada, de Denis Villeneuve

O tamanho é apenas um blefe. As grandes naves não deixam ver tudo o que há em seu interior. Os humanos, ao invadi-las, em A Chegada, encontram apenas um túnel no qual as leis da gravidade não funcionam e, à frente, uma câmara na qual confrontam os alienígenas, atrás de uma de parede transparente usada para a comunicação.

Em um filme sobre o diálogo possível entre extraterrestres e humanos, as grandes naves que pairam entre o céu e a terra, cuja forma remete a uma concha (como são chamadas), apenas corroboram o mistério, não dizem nada e não dão respostas.

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No interior não é diferente. O diretor Denis Villeneuve de novo se ampara na dificuldade de dizer, na oportunidade de o espectador cavar, por si próprio, uma saída possível: mesmo com algumas explicações, e até mesmo com legendas para traduzir a língua alienígena, ainda sobram perguntas: por que eles vieram? Qual a verdadeira importância da solitária linguista Louise Banks (Amy Adams) para essa história?

Sobre a primeira questão: os alienígenas, ao que parece, buscam ajuda. Sobre a segunda: Banks é o ponto central, personagem entre dois tempos. Ao mesmo tempo em que vive o contato com seres de outro planeta, ela devolve a experiência conhecida: os momentos entre mãe e filha. Como fica claro no início, sua filha ficou doente e morreu.

E, quando se elege esse ponto central, o espectador tornar-se-á refém da personagem, não dos visitantes. Os seres estranhos – escuros, grandes e com sete pernas – apenas conduzem, mais e mais, a essa mulher da qual pouco se sabe.

A experiência conduz ao futuro, menos ao passado. Ao que parece, Banks é eleita heroína pelos alienígenas, que a usam para salvar o planeta. É nesse ponto que a comunicação impõe-se: a salvação será dada pelo diálogo, não pelas armas.

À comunicação, antes, recorreu Steven Spielberg em Contatos Imediatos do Terceiro Grau, ou Kubrick em seu monumental 2001: Uma Odisseia no Espaço. São filmes diferentes quando se trata do uso do tempo e da narrativa, mas filmes que lançam um olhar sobre a possível relação (de união ou não) entre seres de diferentes planetas.

Os filmes de Kubrick e Spielberg foram realizados durante a Guerra Fria. O de Villeneuve – por acaso ou não – dá as caras no momento em que ganha força o discurso conservador e protecionista de Donald Trump, eleito presidente dos Estados Unidos e decidido a erguer muros contra os “estrangeiros”, os visitantes indesejados.

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Não custa o esforço da troca: os alienígenas sem forma definida, ou mesmo com uma forma que não leva ao medo ou tampouco ao deslumbramento, são os indesejados da vez. Sequer precisam explicar o motivo de suas vindas. E Banks, a americana assustada, de olhos arregalados a cada pegada pela câmara escura, experimenta o diálogo.

Banks descobrirá, a certa altura, que é mais fácil dialogar com os novos visitantes do que com os verdadeiros estrangeiros, os humanos, os chineses, os russos ou pessoas de qualquer outro país empenhado em decifrar – ou atacar – as grandes naves alienígenas.

Pior ainda (ou não): os visitantes darão a ela os caminhos para entender esses estrangeiros armados até os dentes, com suas bombas viradas às mesmas naves. Como outras vezes no cinema, eles têm algo caro a ensinar aos homens: o bem maior está no diálogo, no contato e, sobretudo, na descoberta do tempo.

O cinema preenche esse mistério com elipses, com saltos constantes, com cortes que carregam explicação. É possível imaginar, com apenas alguns, entre a nave e a tenda militar, os pequenos progressos de Banks, auxiliada sempre pelo parceiro Ian Donnelly (Jeremy Renner), matemático que a acompanha nessa descoberta.

Com certa constância, Villeneuve – com o roteiro de Eric Heisserer, a partir do conto de Ted Chiang – volta à história de Banks, à vantagem ou ao martírio de enxergar o futuro e utilizar esse dom para corrigir o que há de pior nas pessoas, em um mundo com dificuldade para o diálogo. Não por acaso, com mais soldados que linguistas.

(Arrival, Denis Villeneuve, 2016)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Os filmes de Denis Villeneuve
Contatos Imediatos do Terceiro Grau, de Steven Spielberg

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