Francofonia: Louvre Sob Ocupação, de Aleksandr Sokurov

A humanidade é um navio em alto-mar, obrigada a lidar com tempestades e outros imprevistos. A ideia já estava em A Arca Russa, como apontava seu narrador, ao fim: “O mar cerca tudo. Estamos destinados a navegar para sempre. A viver para sempre”.

O cineasta Aleksandr Sokurov retoma a metáfora em Francofonia: Louvre Sob Ocupação, menos ficção que documentário e, como A Arca Russa, uma “navegação” por um museu – antes o Hermitage, agora o Louvre – e sob os efeitos da História.

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Nesse caso, suas ondas, a atingir o navio-humanidade que tenta sobreviver, com partes que ora ou outra caem no mar. A História é revisada a partir da relação do homem com a arte, da abertura de museus, além da presença do horror do lado de fora.

O próprio Sokurov é uma personagem do filme. Está em uma sala preenchida por livros, em frente ao computador, conversando com um amigo que se encontra em um navio, sob a forte tempestade. Esse homem leva obras de arte em containers. O diretor alerta que carregá-las pelo mar é arriscado. O navegante continua a travessia.

Eles perdem a conexão mais de uma vez. Imagens que não se formam, de um mar revolto contra o navio que sobrevive, mas que não sai totalmente ileso. A certa altura, um container é engolido pelas ondas da História, ou do oceano. Sokurov lembra – e lamenta – as muitas obras que se perderam e terminaram no fundo do mar.

No Louvre, Sokurov revê a História. Como outros museus, o que este guarda pode ser visto como tesouro – acervo mais valioso que a França inteira, diz o cineasta. Ou como troféus de velhos líderes que viam na arte a constatação do poder.

Simboliza a conquista, a tomada, o que também leva ao Louvre ocupado – como a França – durante a Segunda Guerra Mundial. Os alemães tinham grande apreço por esse tesouro e não tardaram a entrar no museu para descobri-lo. Chega-se então ao encontro de duas personagens essenciais: o diretor do Louvre, Jacques Jaujard, e o oficial alemão Franz von Wolff-Metternich. A interpretação ganha espaço.

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O filme de Sokurov é híbrido. Além de imagens da época, das ruas vazias de Paris às andanças de Hitler e de outros nazistas, aposta em encenações, com imagens distorcidas para representar um tempo perdido, como se a História sempre estivesse submetida ao olhar impreciso, turvo, com seus atores às vezes naturais, às vezes não.

Pelos espaços do Louvre, um deles vive Napoleão, que insiste que está ali, vivo nas obras que o representam, acompanhado da Marianne que insiste na “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”. O autoritarismo do primeiro acompanha a suposta utopia da segunda, pontos da História que se cruzam pelo museu, presos às suas interpretações.

A arte quase sempre resiste às piores tempestades – à guerra, sobretudo. A adoração a essa arte não passa sem os questionamentos de Sokurov. É uma necessidade ao homem do velho mundo: preservar tesouros em grandes templos, seu passaporte para o passado.

(Francofonia, Aleksandr Sokurov, 2015)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
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