Uma Voz nas Sombras, de Ralph Nelson

A junção é irresistível: Sidney Poitier, como o viajante sem raízes, encontra-se ao lado de cinco freiras na aridez do Arizona, em algum ponto perdido no mapa. Pede um pouco de água para seu veículo e não consegue mais sair dali. Ganha uma missão.

Para as freiras, uma missão divina. Para ele, com certa desconfiança, a possibilidade de trabalho. O dinheiro não vem, o que não o faz ir embora. Em Uma Voz nas Sombras, a explicação das freiras é divina: ele é o enviado de Deus para construir uma capela.

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As mulheres excluem o dinheiro das relações. Fugiram da Alemanha dividida. Como diz o dono de um bar à beira da estrada, “pularam o Muro de Berlim”. E, após atravessarem o Atlântico, terminaram naquele ponto perdido, à espera do milagre.

O bom homem de Poitier, Homer Smith, aos poucos aceita a missão e passa a ajudá-las. Não só: ele deseja construir a capela sem o apoio de ninguém, como os mexicanos que se aglomeram por ali. A união entre povos corre ao fundo, como a distância entre o homem negro viajante e as freiras que desejam fincar raízes.

O diretor Ralph Nelson deixa essas possíveis leituras também ao fundo, somente chegando à frente ora ou outra, quando há uma discussão a travar. Não se exclui a oposição entre sexos, mesmo com mulheres cobertas dos pés à cabeça.

Poitier, negro de tronco nu, ou mesmo com uma camiseta branca apertada, capaz de trazer à lembrança o jovem Marlon Brando de dez anos antes, coloca-se contra essas mulheres cheias de reservas à vida mundana, aos ganhos materiais.

Não deixa de ser, assim, um filme que abafa uma geração libertária em nome da missão religiosa, a engrandecer esse homem ao centro: ao fim, quando termina de fincar a cruz sobre a capela, Smith faz questão de assinar seu nome ao mesmo tempo em que a câmera mostra-o de baixo para cima, alguém divino e vitorioso.

Não há um vilão. Há circunstâncias, diferenças, encontros, e também a maneira como Smith sempre vê com reservas a insistência das mulheres em se recolher, ou em proibir qualquer amostra do pecado, como a dança frenético do homem negro e dos mexicanos.

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Smith deve acordar de manhã, comer pouco e, além de ajudar as freiras, terá de abrir a porta do carro para elas. Ele não se importa e o faz sem que peçam. Faz por movimento natural: é um herói que se molda sem esforço, com graça, mesmo quando se rende aos desejos do mundo – quando vai embora e retorna com uma camisa florida.

E basta esse pequeno sinal – a camisa florida, além dos óculos escuros – para entender aonde ele foi. O filme trabalha com sutilezas, com um drama que quase não se vê. Fosse outro caso, certamente a personagem do empreiteiro surgiria aqui como a vilã, a destruir a capela, ou a colocar os mexicanos e o negro para correr daquele local.

Em Uma Voz nas Sombras, o empreiteiro também se recolhe ao observar o “milagre”: as pessoas não precisam de grandes máquinas ou de empresas para erguer uma construção. Por ali, ele mostra-se um pouco abobalhado frente àquela força estranha.

A língua é a forma de Smith invadir o mundo das mulheres, é a troca. Antes, ele teria dificuldades para se adaptar; com a língua, é elas que precisam se ajustar, aprender com o visitante. E os momentos em que o grande ator brinca com seu poder – a língua – colocam o filme em outro patamar. Poitier ganhou um Oscar por sua interpretação.

À palavra recorrem o viajante e a líder das freiras, em certo momento, para digladiarem com passagens da Bíblia, sobre ganhar para o trabalho ou trabalhar para chegar a um ganho maior, e não meramente material. Vencem sempre as boas intenções.

(Lilies of the Field, Ralph Nelson, 1963)

Nota: ★★★★☆

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