Elle, de Paul Verhoeven

As personagens de Elle, de Paul Verhoeven, vivem segundo as regras da aparência. Em certo sentido, limitadas como estão, vivem também movidas à vergonha: não suportam olhar para si mesmas, e por isso apelam às máscaras.

A personagem central, Michèle Leblanc, rompe essa barreira quando um homem mascarado rompe – mais de uma vez – a porta de sua casa, quando invade o ambiente para violá-la. O estupro concede ao filme outra camada. O que poderia ser o início de uma depressão, de medo constante, torna-se uma mudança estranha.

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Não significa que Michèle tenha prazer pelo estupro. Ao contrário, ela arma-se para estar pronta para o estuprador, em qualquer nova invasão – e esta, saberá o espectador ao longo de Elle, é uma certeza: ora ou outra o criminoso deverá retornar.

O que a faz romper o estado anterior – refletido na vida burguesa, a começar pelos amigos, pelos jantares, pelas festas que frequenta – é o estupro. Ela decide não se calar e passa a ser um incômodo: diz ao filho que seu primogênito não é dele, resolve confessar à melhor amiga que é o amante de seu companheiro, e talvez realmente ceda, em partes, à beleza do estuprador, mais próximo do que imaginava.

Ela rompe a camada à qual todas essas pessoas são levadas, na qual se veem protegidas, aquecidas por uma aparência de quietude – contra a vergonha também nítida em alguns. Não demora nada para que Michèle confesse: “a vergonha não é um sentimento suficientemente forte para nos impedir de fazer o que quer que seja”.

O filme de Verhoeven impõe, nessa mesma personagem, a dificuldade de culpá-la – ou mesmo de culpar seu autor. Há quem veja misoginia. Mas Michèle não pode ser explicada com facilidade, na maneira como se movimenta e busca (ou não) a vingança contra o agressor, ou contra todos que, como ele, escondem-se em máscaras.

Por isso, não é exatamente um filme sobre estupro: é sobre como essa mulher mobiliza todos ao redor, ou os testa, ou os confunde, para chegar ao ponto em que amputa a vergonha, a falsidade, ponto em que pode até mesmo sentir excitação pelo agressor.

Eis o problema: há uma estranha zona entre a violência e o prazer, pela qual a mesma protagonista passa a circular. E, não por acaso, a personagem está à frente de uma empresa de games repletos de violência – não por acaso, de monstros contra mulheres.

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A violência, de um lado, assimilada, como espetáculo guiado, que parece indolor; e, de outro, a violência da pele, do ato sexual, que oferece ao mesmo tempo um jogo – entre a protagonista e o agressor – e a inevitável constatação de um crime, algo a repudiar.

A violência do estuprador só pode se existir enquanto houver a vítima. Quer dizer, o medo, a mulher acossada, que talvez se deixe violentar. Quando essa mulher mostra aceitação – e, talvez, pitadas de prazer –, o agressor perde as forças e recua.

Na televisão, a imprensa deixa espaço para os extremos: o assassino que segue preso após matar diversas pessoas (o pai de Michèle) e o papa, que emite apenas sinais de bondade – às câmeras, pelo menos. Não há nada ao centro, entre esses extremos.

Filme complexo guiado com força por Verhoeven, que retorna ao universo feminino. A ajudar, uma grande atriz em grande momento. A pequenez de Isabelle Huppert não impede que imploda, a certa altura, contra os homens, ou todos que ainda ousam se esconder. Seu corpo grita, desde o início, quando é violada, e quando volta a ser.

A obra começa com a violação, com os olhos do cúmplice, o gato, que nada pode fazer senão assistir ao crime. Início com rompimento, barulho, mudança no curso da vida da protagonista, que decide agir contra a vergonha e adere à transformação.

(Idem, Paul Verhoeven, 2016)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Showgirls, de Paul Verhoeven

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