Pequeno Segredo, de David Schurmann

No mundo real, parece incompreensível que crianças nasçam com o HIV, que baleias terminem encalhadas na areia e se tornem vítimas de suas próprias toneladas, em algum erro de difícil compreensão ao olhar alheio. A natureza é implacável.

Os salvadores fazem o que está ao alcance: a mãe não diz a verdade para a filha doente e, com esse segredo, prefere que ela continue vivendo bem; os banhistas, frente ao leviatã encalhado, correm com seus baldes, jogando água sobre o monstro que sofre.

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A mãe biológica da menina aproveita para ajudar a jogar água na baleia. Um instinto natural ressaltado em Pequeno Segredo, de David Schurmann: o desejo de ajudar, de salvar, de fazer a vida correr – ainda que difícil quando se trata de tanto peso.

Não recorresse tanto ao excesso de bondade, com personagens quase sempre perfeitas, talvez o filme de Schurmann sair-se-ia melhor. Como está, a acrescentar outros erros, termina em um drama de mensagens gastas, cercado por belas imagens. Nem mesmo a economia do roteiro em algumas passagens evita o fracasso da empreitada.

O exemplo que o cinema não cansa de dar, e não raro como se pensa: não bastam belas imagens e sequências bem estruturadas para se ter um bom filme. Pequeno Segredo erra ao se render à palavra confortadora, a saber, que a compensação à morte de uma criança é a possibilidade de fazer nascer uma borboleta, um anjo, ou algo que transcenda a realidade que se impõe – ou nem se chega a isso.

Pois realidade não é o forte da obra. E talvez nem queira ser. O filme de Schurmann estrutura-se em um conhecido confronto entre os problemas inerentes às pessoas, no inexplicável que tanto as maltrata (a natureza é implacável), e a vontade de fazer o oposto, de nadar contra as toneladas do leviatã encalhado, ou lutar com o invisível.

Pois as pessoas, aqui, quase sempre surgem com mensagens prontas, com diálogos conhecidos, além da pré-adolescente que recorre a seu diário para descrever seus desejos – e, claro, partir o coração do espectador que sabe de seus problemas.

E não se trata de dizer que a essência é responsável pelo resultado final. Nunca é. Talvez falte distanciamento. Schurmann sabe como chegar à beleza, mas não como construir personagens de maneira satisfatória ou como estruturar suas relações.

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O resultado é um drama atrapalhado entre dois tempos, uma narrativa de relações entre pais e filhos, continentes, entre pessoas que quase sempre se entendem contra uma natureza que insiste em atrapalhá-las, em colocar baleias ou doenças no caminho.

O encerramento já se sabe. As imagens da abertura, com personagens à beira-mar, não escondem o ritual. E as imagens da mãe e da filha, em outra praia, sob o pôr do sol, igualmente limitam o filme à mensagem de amor, ao melaço conhecido.

Para que nem tudo pareça esquemático, elege-se a vilã, a personagem de Fionnula Flanagan, com o olhar colonizador europeu, que não cansa de apontar os brasileiros como selvagens. Mãe possessiva, ela não aceita a união do filho (Erroll Shand) com uma brasileira (Maria Flor), nem o fato da neta ser adotada por outro casal latino, da família Schurmann, interpretado por Júlia Lemmertz e Marcello Antony.

Barbara (Flanagan) surge nessa história ao lado de belas flores e, mais tarde, as mesmas estão secas e sem vida. Mas nem ela resistirá à bondade e ao açúcar que recobre o filme.

(Idem, David Schurmann, 2016)

Nota: ★☆☆☆☆

Veja também:
Macbeth: Ambição e Guerra, de Justin Kurzel

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