Frances, de Graeme Clifford

Aos olhos do dono de um estúdio, a bela atriz Frances Farmer é um produto entre tantos: sua beleza destoa e pode render milhões. É tempo de pobreza, durante a Grande Depressão, quando belas e louras como ela produziam o oposto ao que se via nas ruas, como o amontoado de mendigos que tentava se esquentar.

Ao lado desse amontoado de gente, a mãe possessiva de Farmer expõe outro contraponto enquanto é levada, em um belo carro, à estreia do novo filme da filha, Meu Filho é Meu Rival: “Não é um conto de fadas?”, questiona, sorrindo aos companheiros.

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De Graeme Clifford, Frances passa longe do conto de fadas: sua estrela – de trajetória não muito distante de outras garotas belas que tentavam a sorte em Hollywood e nem sempre tinham êxito – passa mais tempo no inferno que no paraíso.

Frances Farmer, interpretada com garra por Jessica Lange, não tem a pretensão de viver esse conto de fadas. A ideia pertence à mãe. A filha nunca deixou de enxergar – ainda que nunca estivesse totalmente do outro lado – os problemas da época: os miseráveis pelas ruas e as contradições do sistema de estúdios ao qual servia.

A mãe vive, ou prefere viver, o lado confortável, no carro que a leva à estreia do filme: o dia de estrela que transfere à pele da filha. Ainda que o filme não se aprofunde na questão, a mulher mais velha (Kim Stanley) usa a filha para realizar seus desejos.

Farmer era bela, explosiva, ateia, assumidamente comunista no início da história. Com 16 anos, ganhou um concurso literário. Suas palavras, para parte de uma plateia assustada, apontavam à morte de Deus. A mãe aplaude-a – talvez mais pelo êxtase dos louros do que pelo conteúdo de seu trabalho provocador.

E ainda que pareça ousado, não passa incólume o tom adolescente dessas palavras narradas pela própria menina, na abertura: é o diário de uma desiludida, ainda cedo, com o que a cerca, talvez em busca do que está além daquela casa aconchegante, da família tradicional. Hollywood não poderia ser seu choque de realidade.

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O mesmo produtor, a Farmer, diz ser como Henry Ford. A diferença é que fabrica estrelas, ou sonhos, com seus filmes moldados à necessária alegria para tempos de extrema pobreza. Se o cinema parece escapar à realidade, o teatro contorna o problema.

A protagonista encontra espaço nos palcos, em uma peça de Clifford Odets (Jeffrey DeMunn). Apaixona-se pelo autor, sofre nova desilusão. Os radicais dos palcos, comunistas como ela dizia ser, usam a fama de Farmer e depois a descartam.

A cada desilusão ou problema, a atriz termina em sua casa, de volta às pressões da mãe. O filme molda-se a essa relação. A fotografia de László Kovács não chega a ser sempre realista e contribui à atmosfera perturbadora. A montagem, a certa altura, alterna imagens do diretor do hospital psiquiátrico, contando o progresso do tratamento da protagonista, com momentos de loucura da moça.

É o choque de realidade que a confronta: antes a servir com o corpo às câmeras dos estúdios hollywoodianos, mais tarde ela servirá como cobaia a um teatro real sobre os “benefícios” da lobotomia no tratamento de pacientes, no interior do hospital.

O pior reserva-se ao encerramento: Farmer participa de um programa de televisão, atriz no interior de outra, paparicada com um presente (um carro) enquanto serve o público com a recorrente “volta por cima”. A essa altura, a personagem parece ter cansado de lutar, ou perdido sua característica central: o jeito explosivo de viver.

(Idem, Graeme Clifford, 1982)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Meu Filho é Meu Rival, de Howard Hawks e William Wyler

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