Um Só Pecado, de François Truffaut

Escritor e intelectual, homem influente, Pierre Lachenay (Jean Desailly) é prisioneiro da própria máscara, a do homem correto, polido, bom pai de família. Sua vida muda em uma viagem para Lisboa, quando conhece uma bela aeromoça, Nicole.

Durante Um Só Pecado, o diretor François Truffaut investe nessa vida à base de interpretações: cada pequeno detalhe faz sentido, da mecanização do mundo ao seu oposto, aos gestos inesperados – alguns deles levados apenas ao espectador.

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Estranho mundo romântico recoberto pelo suspense: a cada nova entrada ou saída de Pierre, a cada nova escapada e mentira (mas recobertas de sentimentos), o espectador parece ser levado ao suspense, pois talvez sobre culpa nesse grande filme.

É no centro que está a influência de Hitchcock, no plano-detalhe das mãos que se tocam, ainda nos créditos, no detalhe das mesmas mãos que apagam e acendem as luzes, no olhar de Pierre, ao fim, à menina que fala no interior da cabine telefônica – quando o tempo da beleza é também o tempo do suspense, quando o banal faz toda a diferença.

Em linhas gerais, Pierre é vítima de seu próprio disfarce. Provável que ele mesmo não reconheça isso. Sua vida tem um choque quando redescobre o amor – e, em carta, confessa-o para depois jogá-la fora, porque talvez não possa ir além das intenções.

E quando consome, quando assume seu amor pela amante, é ela quem deixa espaço para isso: ele, no fundo, é um impotente, alguém sem condições de deixar a velha vida e assumir a nova, ou apenas alguém impossibilitado de se dobrar ao puro desejo.

Precisa da força de sua mulher – a verdadeira força do filme, interpretada por Nelly Benedetti – para deixar sua casa. Para ele, a saída talvez seja demais, e quando pode, a certa altura, ainda retorna para tirar vantagem: volta a fazer sexo com a esposa, tragado pela atração da antiga vida, ou pela dificuldade de renunciar a ela.

A fraqueza persegue-o: faz com que corra, durante um encontro, para servir ao papel do grande escritor, apresentador, a falar da obra de André Gide antes da apresentação de um filme, e depois retorne para o pequeno hotel onde está a amante.

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Se sua vida é dupla, a vida da mulher, Franca (Benedetti), é uma só – ainda que pareça viver mais de um papel. Nesse ponto, Truffaut deixa ver a essência da obra: aquele que parece natural é quem interpreta, e quem parece viver mais de um papel – o da mulher amável e depois o da explosiva e assassina – é quem renuncia à interpretação.

O escritor está às sombras: precisa apagar as luzes para consumar o pecado. Na sequência do cinema, vai para trás da tela e, insignificante, é visto à sombra de Gide, sobre quem falava e que se agiganta na tela voltada para os espectadores.

Nesse filme de amor recoberto por suspense, ainda resta a beleza da amante (Françoise Dorléac), de quem pouco se sabe. Quando o pai dela surge para uma visita, o protagonista ainda aguarda, na escada, para ouvir a filha cumprimentar o velho homem. Precisa ter certeza da normalidade que não encontra na moça.

Dessa necessidade de apresentar o menor, o detalhe, e que faz pensar novamente no momento em que o homem observa a moça na cabine telefônica, vem a grandeza da obra de Truffaut, muito além da história de traição.

É, no fundo, sobre a necessidade de interpretar, recheado de pequenas coisas banais e importantes ao suspense, com uma bela, jovem e talvez enganadora amante, a quem o amor talvez seja algo ainda inalcançável.

(La peau douce, François Truffaut, 1964)

Nota: ★★★★☆

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