O Quarto Verde, de François Truffaut

Os toques em verde, no quarto, perdem-se na escuridão. Não faria sentido se fosse diferente, pois O Quarto Verde, de François Truffaut, é sobre morte. O quarto em que se refugia o protagonista, vivido pelo diretor, é o espaço de culto à mulher morta, ambiente no qual ela revive, ou apenas se faz presente pela memória.

Sobre morte, sim, este filme admirável, contido, mas também sobre a resposta dos vivos, sobre certa obsessão em construir altares, em se fechar em capelas, acender velas a todos, em retratos pregados na parede, que não estão mais por ali.

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O protagonista é Julien Davenne (Truffaut), um jornalista repleto de reservas. Ao longo dessa história aparentemente fúnebre, ele aprende até mesmo com quem não gosta, prefere viver em pequena cidade e se acolhe no quarto de sua memória.

É o quarto coberto pelas imagens da mulher morta, coberta pelos seus objetos, com a estátua de uma mão que, mais tarde, receberá um anel comprado pelo protagonista em leilão – objeto que pertencia justamente à ex, uma das pequenas partes a vivê-la.

Ele perdeu a mulher nos tempos da Primeira Guerra Mundial. O conflito também matou alguns de seus amigos. Ele vive agora à sombra do conflito: o quarto e sua necessidade de construir santuários, de viver para lembrar, são produtos dessa guerra insana.

A história passa-se dez anos após o fim do combate, entre as duas grandes guerras. A memória é o mote central para Truffaut, que se aproveita de um conto de Henry James para realizar esse pequeno grande filme, quase um estranho em sua filmografia.

O “quase” tem sua explicação. Vale aqui um parêntese: apesar da aparência contrária a tudo o que o diretor francês realizou – o “cineasta apaixonado”, o “homem que filmou o amor” –, O Quarto Verde é mais sobre a resistência da memória do que sobre morte.

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É, à sua forma, um filme sobre o amor, o amor que compreende a ironia dos vivos, pessoas que simplesmente recusam narrativas desviadas, gente como Davenne, insuportável em suas obsessões e, ora ou outra, abatida pelo inesperado. Por isso, outra mulher vem a ocupar papel importante em sua vida. É Cecilia (Nathalie Baye).

A moça, sobre quem ele pouco sabe, está à frente das peças do leilão – entre elas, o anel de sua ex. Davenne passa a se encontrar com ela. A certa altura, quando resolve restaurar a capela do cemitério para fazer viver seus mortos para sempre, elege-a a companheira para a empreitada, alguém a continuar por ali, a ascender velas.

O protagonista reconhece sua perenidade, e nem sempre encara os problemas. A moça confronta-o. Essa relação é feita de sentimentos estranhos, diferentes olhares: ele deseja ascender uma vela para cada morto que venera; ela prefere ascender uma única a um único morto. Ao fim, ela será obrigada a permanecer, a ascender outra vela.

As imagens da abertura apresentam a guerra. O rosto de Truffaut funde-se a elas. Trata-se de um sobrevivente, eleito para ficar por ali, ao contrário de tantos outros – amigos e desconhecidos – que morreram nas trincheiras. Ele abarca essa memória, é sua própria transfiguração pelo efeito cinematográfico.

Homem-memória que conhece mais mortos que vivos, que escreve obituários – nenhum igual a outro, como observa seu chefe – sem enaltecer os que se foram e, a certa altura, obrigado a destruir a réplica, em escultura, da ex-mulher. Não há duplos por aqui. Davenne deverá cultuar a verdadeira, mesmo que reduzida às cinzas.

(La chambre verte, François Truffaut, 1978)

Nota: ★★★★☆

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