O Homem Que Amava as Mulheres, de François Truffaut

A obsessão de Bertrand Morane pelo sexo oposto não chega a ser destrutiva. É, antes, uma declaração de amor do realizador do filme às mulheres. François Truffaut, o “cineasta apaixonado”, deixa ver muito de si em sua personagem.

A paixão não é voltada apenas às damas. O Homem Que Amava as Mulheres celebra a liberdade, os movimentos do protagonista, pela rua, cercado de beldades por todos os lados – talvez em um sonho, enquanto elas, sem parar, dirigem-lhe olhares.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

o-homem-que-amava-as-mulheres1

Classifica-as, explica sua vida, essas passagens, sem nunca soar machista. A paixão sempre serve de bloqueio. Truffaut torna o erotismo leve, nem por isso careta ou desconectado de seu tempo. Seu protagonista (Charles Denner) gosta mais das pernas, ou do barulho das pernas quando se cruzam, do que de seios expostos.

Apega-se ao menor. E esses pequenos desejos estranhos sempre dão vez a histórias engraçadas: o homem que bate o carro de propósito e inventa uma mentira para descobrir o telefone de uma mulher, ou o homem que sonha com a mãe perseguidora, mostrada aqui de maneira desejável. Essa personagem é conhecida.

Truffaut gestou-a antes em Um Só Pecado, por exemplo, com o olhar permeado de medo e incerteza, mas, sobretudo, de vontade, de Jean Desailly à jovem e futura amante, quando se cruzam no elevador; ou mesmo o do jovem Jean-Pierre Léaud ao seu primeiro amor em Antoine e Colette, ao observar suas pernas a distância.

Por isso, Bertrand reserva um espírito sempre jovem. Cada mulher é um universo à parte, diferente, algo a ser descoberto: cada uma delas, à rua, volta-se a ele de maneira diferente, e é como se Truffaut celebrasse justamente o oposto à banalização.

Passa longe de qualquer comédia americana sobre mulherengos em férias. O amor, no cinema de Truffaut, dribla o aspecto passageiro. Ainda assim, Bertrand não tem ninguém, tem dificuldade para se apaixonar, talvez por amar todos e ninguém. Personagem não muito distante – mesmo mais leve – das criações de Hitchcock.

o-homem-que-amava-as-mulheres2

O olhar masculino oferece autenticidade. Antes, com o olhar feminino em A Noiva Estava de Preto e Uma Jovem Tão Bela Como Eu, o grande cineasta colheu resultados irregulares. No campo da tragédia, em Adèle H., conseguiu uma grande obra.

Isso não quer dizer que esteja impossibilitado de compreender relacionamentos com profundidade pela ótica feminina. Suas mulheres têm vida própria em filmes variados. Em O Homem que Amava as Mulheres não há muito sobre nenhuma delas: são quase sempre anjos, representações, figuras essenciais ao herói.

O médico que atende Bertrand, a certa altura, diz algo cômico e oferece verdade – como sempre faz Truffaut, aproveitando-se dos opostos. “Não se pode fazer amor o dia todo. Por isso inventaram o trabalho”, explica ele. Não há motivos para duvidar.

Tão cômica quanto trágica é a situação de Bertrand no encerramento. Ele morre pelas mulheres, traído – e tragado – pelos desejos. Nada pode fazer: é sua natureza. Nesse ponto, Truffaut aponta a Hitchcock: a exemplo do protagonista de Um Corpo que Cai, seu herói apaixonado está condenado pelos desejos, não pode voltar atrás.

A personagem volta-se às pernas femininas, a seus movimentos. O equilíbrio e a harmonia de seu universo dependem dessa repetição. Bertrand segue as pernas e não só: segue as mulheres, flerta com todas – e cada uma, sabe o público, tem papel especial.

(L’homme qui aimait les femmes, François Truffaut, 1977)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Marcha Nupcial, de Erich von Stroheim

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s