O Garoto Selvagem, de François Truffaut

Os outros, considerados civilizados, usam o pequeno menino para ganhar dinheiro, ou apenas como forma de observar o diferente, o estranho, e não percebem o quanto parecem selvagens. O garoto é sempre tratado como parece ser, um animal.

Aos poucos, em O Garoto Selvagem, ele é treinado, ou talvez educado: esse menino (Jean-Pierre Cargol) recebe informações, linguagem, cultura. Mas a própria mudança, de certa forma, já lhe impõe outra cultura, mas não sem conflito.

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O filme de François Truffaut, fotografado em preto e branco, com delicadeza, por Nestor Almendros, é sobre como a diferença do menino – encontrado nu e sozinho em uma floresta, onde teria vivido por anos – está, primeiro, no olhar alheio.

O espectador o menino pela primeira vez apenas quando alguém retira seus cabelos longos da face, quando então é possível chegar aos contornos de seu rosto.

É pela face que é identificado, pela visão, e é como se, enfim, ganhasse uma identidade aos olhos do público. Não por acaso, em boa parte o espectador não sente falta de um nome, que chega depois. Chamar-se-á Victor, segundo ideia de sua criada. O retirar do cabelo é o retirar de uma camada, o lado selvagem, e a colocação de outra: é quando o menino passa a ser “alguém”.

No início, ainda sozinho no campo, ele é visto por uma mulher que colhe frutos. Sua primeira aparição só pode ocorrer pelo olhar do outro. Apenas existe pelo outro. Em seguida, a câmera acompanha-o até a árvore. Escala os galhos e depois é visto sentado, enquanto balança a cabeça. De longe, perde-se entre a natureza, é partícula.

Detido pelos homens, ele é levado a um internato voltado a surdos-mudos. Suas medidas são retiradas. Deitado, homens vasculham seu corpo, observam suas cicatrizes. Especulam o passado a partir dessas formas: conferem a ele, logo, uma “história”.

Pois, ao tratar do ingresso do garoto à civilização, Truffaut fala, na verdade, da exploração da linguagem, ao passo que as pessoas só são pessoas – e não selvagens – quando podem entender signos e, portanto, fazer parte da sociedade, com suas regras.

Estas são observadas em detalhes: no pedido do leite, na chave que serve para abrir a porta, nas palavras embaralhas e depois organizadas, na cama em que o menino não gosta de dormir e, depois, nos sapatos e na calça que terá de aprender a colocar.

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O filme de Truffaut é feito de detalhes, de delicadeza, de instantes que explicam tudo. O próprio diretor faz o papel do professor, espécie de pai obrigado, mais tarde, a punir o filho – mesmo quando este está certo – para descobrir nele a revolta e, por isso, uma atitude moral, não meramente mecânica. A descoberta é o ponto alto dessa educação.

Na lousa, o professor escreve o nome do pupilo. “Victor é você”, diz, em seguida, olhando para o garoto. A frase define a obra: o menino passa a ser a palavra, não mais aquele ser aparentemente selvagem, sobre a árvore, a balançar a cabeça.

Os signos definem os humanos: a capacidade de produzir linguagem, de se comunicar e, por consequência, de estar no mundo. Por outro lado, é o que dá vez à conhecida ordem, e o que opõe o garoto, pelo aprendizado, ao estado selvagem.

Em cena, Truffaut sempre interpretou a si próprio. Não mais que o pequeno francês de fala direta, frio, sem necessidade de agradar – como se veria em O Quarto Verde. Em O Garoto Selvagem, isso cabe à perfeição à sua personagem. Como ator, não tem de ser bom e o filme não precisa reproduzir a relação de amor entre pai e filho.

A beleza da obra está justamente na relação sóbria, até fria, nos detalhes que se servem da sensibilidade da direção, da fotografia em preto e branco, dos traços do menino que parece não interpretar e tampouco ser ele mesmo. É algo à parte.

(L’enfant sauvage, François Truffaut, 1970)

Nota: ★★★★★

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