Na Idade da Inocência, de François Truffaut

Os problemas enfrentados pelas crianças quase sempre são contornáveis, engraçados e carregados de leveza em Na Idade da Inocência.

Ao não estruturar a obra em uma única personagem, a impressão é que o diretor François Truffaut tenta compor um painel, o que oferece aproximação ao cinema de Jean Renoir. São filmes que se valem mais da ambientação, de pequenas graças, da vida comum – como em Boudu Salvo das Águas, Um Dia no Campo e A Regra do Jogo.

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Com as crianças e adolescentes, ampliam-se possibilidades. Truffaut sempre se queixava da forma como elas são representadas no cinema. Já em seu longa de estreia, Os Incompreendidos, o autor tenta mostrá-las despidas de qualquer idealismo.

Em um artigo de 1975, o diretor argumentava que as crianças já traziam natural poesia e, por isso, seria dispensável injetar mais. E também citava, sabiamente, que qualquer gesto de uma criança na tela é como o primeiro, algo inimitável.

E o realismo não o priva da comédia, como se vê em Na Idade da Inocência – mesmo que a nostalgia ora ou outra se insinue capaz de transferir o espectador a outro universo, a algum ponto entre essa suposta “bela vida” e a “vida real”.

Talvez valha crer na visão de Truffaut, mestre na condução de crianças na tela: seja no campo da comédia ou não, do impossível ou não, a criança será sempre registrada como é, sem os contornos do cinema clássico. Quase sempre acompanhada de graça.

Em Os Incompreendidos, por exemplo, até mesmo alguns delitos de Antoine Doinel parecem engraçados, fruto da chamada “molecagem” – ao passo que ele, e qualquer criança, não têm ideia de sua própria ação e das consequências.

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A vida parece mais fácil, mais engraçada. E mesmo quando tudo fica mais sério, sinistro, melhor é tomar distância. À ótica de Truffaut, a dor das crianças não será ocultada, tampouco a capacidade de fazer certo mal, ou de cometer crimes.

Uma delas, em Na Idade da Inocência, é marginalizada, dorme na rua e é espancada pelos parentes. A resposta de Truffaut, ainda que não dispense suas dores, está em seu registro, em detrimento do registro dos parentes: é sempre ela que toma a tela, com beleza, inocência, sua forma de seguir vivendo por viver, até um pouco feliz.

Quando o crime vem à tona, quase não é possível ver os culpados. Estão distantes, acossados, são adultos punidos como se viu outras vezes. Estimula-se a imaginação, a cruel imaginação sobre o que se passava na casa, também o fora de campo.

O ambiente ao centro é um bairro, um conjunto de prédios. Das janelas, as crianças e suas famílias veem as outras. Estão juntas na escola, nas pequenas brincadeiras, nos furtos, no olhar à bela mulher com pouca roupa, que se limpa, pela janela do prédio.

Essa natureza (perfeita ao cinema) inclui o impossível, como o momento em que uma criança cai do prédio e sobrevive. Cai sorrindo e continua a caminhar, vive, para o desespero da mãe. Continua criança, sem servir a um papel específico.

(L’argent de poche, François Truffaut, 1976)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Cinco Graças, de Deniz Gamze Ergüven

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