De Repente Num Domingo, de François Truffaut

O último capítulo de François Truffaut é, primeiro, a volta ao passado, desfile de referências, destilar de traços sem compromisso senão com o próprio cinema. E cinema maior, raro, no preto e branco que emoldura o filme policial abarrotado de diversão.

O tom é de um policial ao modo série noire, com investigadores improváveis, amantes idem, no terreno que Truffaut havia explorado em A Noiva Estava de Preto. Com De Repente Num Domingo, seu trabalho é ainda mais livre, inclinado à comédia sem que se esqueça dos bons ingredientes do cinema policial.

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Sua investigadora improvável nasce da pele da bela – então companheira do cineasta – Fanny Ardant. Como Barbara Becker, divide o tempo entre ser secretária de um homem um pouco mais velho, misterioso e autoritário (Jean-Louis Trintignant) em uma imobiliária e os palcos do teatro, em seu trabalho como atriz amadora.

Nos ensaios, a bela faz questão de enfatizar que se trata de teatro amador. E, para Truffaut, trata-se assim de delimitar o clima de desacertos, dos tropeços que virão: ver-se-á um mundo de amadores, de seres perdidos e engraçados, daí o descompromisso.

Em contrapartida, o visual é rigoroso, de novo com a fotografia de Néstor Almendros. Esse meio entre rigor visual e descompromisso temático produz um filme de sustos, uma beleza estranha mas não inédita ao cinema moderno. Truffaut chega à consciência de um grande autor: recorre ao máximo da beleza e da liberdade.

Não dá para ser injusto ou rasgar o passado: algo semelhante pode ser visto, por exemplo, em O Último Metrô ou mesmo em Beijos Proibidos. Estavam lá o palco e a agência de detetives – respectivamente – e também a queda inegável por personagens passageiras, enxeridas, seres que mergulham na tela sem pedir licença.

É o caso do rapaz que flerta, ainda no início, com a protagonista de De Repente Num Domingo – para ouvir, após a dispensa incontornável dela, que segue para outro lado, um “assim é a vida”. É a súmula do que vem pela frente, ou mesmo seu oposto: a aparência de que tudo não passa de um golpe do destino.

Basta, para alguém como ela, evocar tal expressão: filmes como este não recorrem a ela por acaso. A mescla de beleza e liberdade, que explode ao público, é justamente prima dessa expressão certeira e nada casual, como cada bofetada inesperada, cada diálogo ríspido, cada maneira propositalmente inverossímil da bela Ardant.

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Secretária, ela aceitará correr atrás das pistas – e de um verdadeiro criminoso, ou mesmo de uma rede criminosa – para livrar a cara do chefe, Julien Vercel (Trintignant). Ele é acusado de matar a própria mulher e seu amante, além de outros cadáveres que surgem pelo caminho. Tomada também pela necessidade ação, Barbara decide ajudar.

Ao escrever sobre Ardant, Truffaut lembraria uma característica que não deixa escapar em De Repente Num Domingo: “uma suspeita de selvageria”. Diferente, vale dizer, daquela intensidade trágica, típica dos amantes, em A Mulher do Lado. A “selvageria”, nesse caso, desloca-se ao domínio do inesperado e do cômico.

Vê-se, portanto, uma Ardant entre homens e mulheres, em um beco, a se prostituir com a naturalidade das melhores atrizes – porque o ofício de detetive, nesse caso, permite-lhe ser uma atriz melhor, e talvez não recorrer ao refúgio dos amadores.

Grande atriz dentro de outra, que enfrenta o domínio das louras, dos homens perigosos e de passagem, do chefe e futuro amante, sobre quem ainda restam dúvidas. Barbara, a última expressão de Truffaut, é a heroína perfeita ao cinema do mestre, que nasce das ruas, das frases pouco calculadas, à base do amadorismo e do acidente.

(Vivement dimanche!, François Truffaut, 1983)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
As Duas Inglesas e o Amor, de François Truffaut

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