A Sereia do Mississipi, de François Truffaut

No papel do homem apaixonado e traído, Jean-Paul Belmondo talvez não seja a melhor escolha para o protagonista de A Sereia do Mississipi, de François Truffaut.

O ator não convence em todas as cenas, tem dificuldade para se mostrar apaixonado. Para piorar, a estranheza da relação com Catherine Deneuve é evidente: ela demora a assumir sua paixão e ele toma algumas atitudes bruscas, levado pelo amor.

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Por outro lado, Truffaut tem sua desculpa: o filme assume um clima de farsa, um suspense à forma de Hitchcock e que se serve mais do clima, da apreensão, menos dos sentimentos entre personagens. O amor completo chega apenas no encerramento, em seu final aberto, quando o espectador sai praticamente de mãos vazias.

“Com o fim do suspense, o início do amor”, é como se dissesse. É a compensação. E o amor deixa algum sentido, alguma esperança. A imagem mostra o casal caminhando pela neve a lugar algum, sem dinheiro, sem nada. É quase a redenção.

As personagens mudam. Invertem-se. Primeiro, a mulher finge ser quem não é: assume o papel de outra, prometida ao rico empresário interpretado por Belmondo, Louis Mahé. Em sua pequena ilha perdida no mundo, ele aguarda pela beldade.

Ela chega, e é diferente da mulher com quem trocou cartas. Não importa: a mulher que desembarca apenas com seu pássaro na gaiola – para demonstrar o que Louis deverá ser a partir de então – é melhor do que ele poderia esperar: é Deneuve.

E assim se deixa levar pelo golpe, pela farsa. Tudo entregue, ou quase. Como Julie e, depois, como Marion, ela foge com o dinheiro dele. Boba como é, ou como parece ser, deixa-se trair pelo antigo companheiro, seu “dono”. O homem foge com o dinheiro, e ela volta a fazer o que sempre fez: prostituir-se.

A essa altura, o homem traído não sabe se é capaz de matar ou se será tomado, de novo, pelo amor. É vítima desse sentimento nobre, termina frente a frente com ela para mostrar o quanto é fraco – apesar da aparência rochosa, o homem Belmondo.

Ainda será um bandido, mais tarde, e precisa matar o próprio detetive que contratou para encontrar a esposa fujona. Por amor, converte-se em criminoso, passa a viver à margem, em fuga, e na companhia de Marion, a bela loura que sonha com Paris.

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Em uma sequência curiosa, quando Louis confessa seu amor próximo à lareira, as chamas aparecem ao fundo de ambos, mostrados em plano e contraplano, como se o fogo mudasse de lugar. Em outro caso, poderia ser considerado um erro. Aqui, mais parece uma brincadeira de Truffaut sobre a situação do casal, sobre pecado e desejo.

Em outra sequência, o diretor francês bebe na fonte de Mortalmente Perigosa e desenvolve um belo plano-sequência que acompanha o casal no interior do veículo. É o momento em que eles voltam ao hotel e encontram o local cercado pela polícia.

Como em outros filmes sobre bandidos que perdem tudo, menos o amor, eles percorrem a trilha do desespero, às vezes se tratam como animais: ela provoca-o, ele pede que ela deixe o carro e depois a procura, pede desculpas. São sempre inconstantes.

Ainda na vida falsa da pequena ilha, no início, ela não consegue dormir com as luzes apagadas. Mais tarde, após cometer um assassinato, é ele que não poderá dormir bem, sob o risco de ter os sonhos invadidos pela imagem da vítima.

A ironia reside justamente na força do amor, na estranha solução que, apesar do passado, abre espaço ao possível recomeço. Ou apenas ao fim incerto – o que, nesse caso, é mais positivo do que parece. Contra a neve, contam apenas com o outro.

(La sirène du Mississipi, François Truffaut, 1969)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Bastidores: A Sereia do Mississipi

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