A Mulher do Lado, de François Truffaut

À exceção da delicadeza, as mulheres de Bernard Coudray (Gérard Depardieu) são diferentes. De tão explícitas, essas diferenças fazem com que o espectador não tenha qualquer dúvida sobre o que o leva à casa ao lado, à vizinha que acaba de se mudar.

A história anterior é sugerida em A Mulher do Lado. Bernard conheceu Mathilde oito anos antes. Foram amantes, em um relacionamento difícil, de momentos explosivos. É a sugestão: ao que parece, um relacionamento fadado ao fracasso graças à intensidade.

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Nas voltas da vida, e da história na qual nada se dá por acaso, essa mulher deveria terminar ali, ao lado, na casa disponível à locação. Azar de Bernard, que se vê novamente levado por ela, pela bela dama diferente, inegavelmente misteriosa.

A vida de Bernard é outra: mora com a mulher, Arlette (Michèle Baumgartner), e com o pequeno filho. Está estabilizado, tem um bom emprego. Vive bem. Da janela, a nova vizinha e antiga amante observa-o. O homem sente-se pressionado, torna-se vítima de escorregões, dos próprios sentimentos que retornam. Perde a naturalidade.

Se nos filmes de Eric Rohmer os amantes seguem naturais até o fim, mesmo sob os efeitos do acaso ou do destino, os de François Truffaut rendem-se sempre à intensidade. E são sempre diferentes – para não dizer suspeitos – quando se trata de sentimento.

Truffaut é o diretor da intensidade. Sempre sem exageros, levado pelo prazer da vida cotidiana, de absurdos e saídas inegavelmente cinematográficas. Como Jean Renoir, é como se Truffaut dissesse, não em palavras baixas, que a vida pode ser cinematográfica a cada instante, a cada movimento, de um lado para outro.

A Mulher do Lado é um de seus melhores filmes, sobretudo no que diz respeito à direção. O cineasta francês trabalha com uma história de amor arrebatadora em tom menor. Nas linhas iniciais há intensidade suficiente. Exageros não são necessários.

Mathilde, a mulher do lado, é interpretada pela hipnotizadora Fanny Ardant. Amante fria, tentadora, que observa da janela ao lado, dos espaços ao lado, que leva o telefone à boca justamente no momento em que o amante faz o mesmo na casa ao lado. A montagem articula com perfeição esses toques e sentimentos, essa difícil distância.

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Sofre-se com muito, mas como se fosse pouco. Não é. O ponto de vista é revezado: primeiro o espectador vê o amor pela ótica de Bernard, depois por meio de Mathilde. A narrativa oferece essa troca, para que se entenda a relação a dois, ao passo que o realizador não resiste em oferecer novos caminhos para o encerramento trágico.

Não poderão viver juntos nem separados. Quem indica isso, ao fim, é a terceira personagem mais importante. À frente de um clube de tênis frequentado pelos amantes, Odile (Véronique Silver) surge para unir as partes, ou para anunciar que tamanha tragédia exige serenidade: em seu tom há até certo sarcasmo e graça.

Pois ela sabe o que é o amor. E a tragédia, para essa mulher, é o projeto irrealizado: antes, quando jovem, tentou se matar por causa de um homem que a abandonou. Truffaut mostra que todo amor arrebatador também leva à morte (pelo menos quando se trata da ficção). Algumas de suas personagens não negam isso, como Adèle Hugo.

A graça em meio à história trágica pode ser vista nos primeiros instantes de A Mulher do Lado, quando a câmera afasta-se de Odile e revela seus problemas físicos. Ela superou seus problemas amorosos para contar, com a dificuldade do passo, aquela história de amantes rendidos pelo inesperado, violentos por amar demais.

(La femme d’à côté, François Truffaut, 1981)

Nota: ★★★★☆

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