No Mundo da Lua, de Robert Mulligan

O diretor Robert Mulligan não tem qualquer problema em deixar que seus filmes pareçam sempre calculados: as transformações da adolescência, com a passagem ao mundo adulto, surgem como sonho, pouco a pouco tornado realidade.

Em No Mundo da Lua sobressai nostalgia, um olhar ao passado intocado pelo cinismo. É a forma do cinema de Mulligan. Suas personagens terminam no ponto inicial, duas irmãs que lamentam não poder contar mais com o “homem da Lua”, um ser imaginário ao qual se voltavam, na infância, para relatar dores, para pedir ajuda.

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Sim, há uma transformação, uma pequena passagem. O visual, no entanto, é praticamente inquebrável, uma América ainda não tomada pelo amargor da urbanização, ainda feita às formas de paraísos secretos aos quais os jovens vão para se banhar.

Neles, descobrem novos sentimentos. A pequena Dani (Reese Witherspoon) – que parece mais nova do que é – encontra seu primeiro amor no lago ao qual corre, em fuga, em tardes de calor. Esse pequeno refúgio é descoberto por Court (Jason London).

Amor adolescente, com sofrimento, do tipo que leva a moça ingênua, infantil, a se agarrar ao travesseiro, a dançar sem qualquer motivo, a expressar inconscientemente qualquer sinal que leva ao amor ao menino distante e não raro arredio.

Ele é um pouco mais velho. E ela, decidida a crescer, a experimentar, resolve tentar algo. A certa altura, em uma das idas à casa da garota, ele conhece a irmã mais velha da protagonista, a bela Maureen (Emily Warfield), e termina apaixonado. Dani desespera-se. Mas o que poderia ser o começo de um conflito entre irmãs toma outro rumo.

Nesse mundo de lembranças, a casa é o local de quietude, com sua estrada sem fim, vista pela janela enquanto é percorrida pelo carro. São momentos assim, aparentemente pequenos, que contam o significado do cinema de Mulligan. Um território perdido, de sonhos, como o espaço quase intocado de O Sol é para Todos, do mesmo diretor.

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No filme de 1962, são as crianças que observam o julgamento do negro acusado de estuprar uma mulher branca. Ao olhar dos meninos – e do espectador –, a injustiça é clara, ainda que o tribunal de adultos e inquisidores não consiga enxergar.

Entre a infância e o mundo adulto, esses jovens veem o óbvio sem esforço. E ainda tentam contato com um vizinho que nada tem de monstruoso em O Sol é para Todos: eles descobrem que essa lenda urbana pode ser até mesmo um herói, um amigo.

A nostalgia volta em Verão de 42, outra incursão de Mulligan pelas dúvidas adolescentes, pelas dificuldades em dar um passo à frente. Nem mesmo a descoberta do sexo terá efeito oposto ao da preservação do sonho, desse belo passado.

No Mundo da Lua celebra, mesmo com o fim de algumas crenças, esse estado divino, essa barreira rompida apenas pelo inevitável: o sofrimento do amor, a morte acidental. Seus seres são intocados. A exceção é o homem mais velho que, a certa altura, tenta atrair Maureen. Alguém que logo desaparece, sem espaço nesse drama de toques leves.

(The Man in the Moon, Robert Mulligan, 1991)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Longe Deste Insensato Mundo, de Thomas Vinterberg

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