A Garota no Trem, de Tate Taylor

Belas, as três mulheres de A Garota no Trem vivem dramas diferentes. A primeira passa todos os dias, a bordo de um trem, em frente à sua antiga casa. O ex-marido, por ali, ensaia uma vida “perfeita”: tem um filho com outra mulher, tem outra família.

Rachel (Emily Blunt) vê o mundo pela janela, com alguma distância: de seu ponto de vista, naquele trem, tudo parece belo – algo que não conquistou. A acrescentar ao drama, Rachel é alcoólatra, o que acelera mais ainda sua chegada ao fundo do poço.

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Seu ex-marido casou-se com a loura Anna (Rebecca Ferguson), antes sua amante e, à frente, vítima do mesmo problema da anterior: será que esse homem não poderia ter uma nova companheira para sexo casual? Além disso, ela encontra, pelas redondezas, a descontrolada Rachel. O sonho da outra se materializou nela: gerar um filho.

Há ainda a peça mais importante, e que muda tudo. A jovem Megan (Haley Bennett) trabalha como babá para Anna e, a distância, vista por Rachel da janela do trem, também parece dona de uma vida perfeita, o que se revela falso.

Diferente das outras, Megan coloca-se entre a liberdade – a do sexo, a da vontade de mudar – e a prisão – nesse caso, ligada à memória, ao filho que ela perdeu. A terceira bela entra nesse universo para ser usada, para servir a diferentes homens: ao marido musculoso, que sabe como excitá-la, ou ao psicólogo pronto para ouvi-la.

Nesse jogo de mulheres e homens, três de cada lado, ou mesclados, Rachel é quem desempenha o papel central e ao mesmo tempo ingrato: por seu olhar, o da mulher desequilibrada, o espectador não sabe ao certo se vê algo verdadeiro ou criado, a história de vidas que acenam a uma sociedade bela e harmoniosa.

Ao escolher saltar do trem, a certa altura, indignada ao descobrir que Megan trai o marido, Rachel persegue a outra personagem, é agredida e fica desacordada. Megan desaparece. Quando acorda, no dia seguinte, Rachel está suja de sangue. E, passadas não tantas voltas, a alcoólatra termina como uma das suspeitas do crime.

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Se a trama de A Garota no Trem prende a atenção, a direção peca ao tentar redimir Rachel a todo o momento, fazendo dela uma mulher fraca. Passe longe de desajustada. Resta como vítima dos homens – e, por isso, não muito diferente das outras.

Seus momentos de crise, por uma câmera trêmula e às vezes lenta, são irritantes. Os efeitos não provocam medo. Em um filme cheio de reviravoltas, a direção de Tate Taylor sempre prefere o artificialismo – a começar pela composição da protagonista.

O mundo americano feito aqui de belos casais em suas grandes casas remete ao recente Garota Exemplar, de David Fincher. Ligação pelo tema, não pela direção. Fincher sabe quando subir o tom, a que ponto chegar, ao passo que Taylor equaliza as diferentes passagens, entre drama e suspense, passado e presente. O ignóbil torna-se quase estéril.

Difícil negar o talento de Blunt. De olhar fundo, sob os efeitos pouco naturais da direção, com frequência ela volta-se às outras mulheres, ou às outras famílias, como se a elas pedisse perdão, gritasse por acolhimento, por inclusão, ou como se esse olhar nada mais fosse que a necessidade de viver aquele sonho: ter um belo marido, um belo filho.

(The Girl on the Train, Tate Taylor, 2016)

Nota: ★★☆☆☆

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