A Bossa da Conquista, de Richard Lester

Os jovens de A Bossa da Conquista não diferem dos Beatles de Os Reis do Iê-Iê-Iê, do mesmo Richard Lester. O cotidiano dessas personagens, em apenas um dia, ao longo de uma hora e meia, resume-se à necessidade de se encaixar, de fazer parte, de encontrar o inexplicável, descobrir a “malícia” ou saber o que fazer com ela.

O mais sensato a dizer é que se trata, antes, de um filme sobre a juventude. Algo cada vez mais raro no cinema: não um filme sobre personagens jovens e adolescência, mas um trabalho livre, que exala juventude pela forma, pelo movimento, pelos cortes.

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Nas ruas, o trio ao centro atrai o olhar alheio: os mais velhos retornam a ele – e à câmera – para declarar reprovações. Lester explora o estranhamento – o dos mais velhos, o do público do cinema – perante gestos inesperados. É a aparente loucura de uma juventude, a possibilidade de se fazer o que quiser.

Um rapaz introvertido (Michael Crawford) divide a grande casa com seu oposto, o namorador (Ray Brooks) que leva novas garotas todos os dias para seu quarto. No dia retratado, eles deparam-se com uma menina (Rita Tushingham) recém-chegada a Londres e com uma rapaz (Donal Donnelly) que deseja alugar um cômodo.

Um filme de leves desacertos: corridas pela rua sobre uma cama, brincadeiras que simulam selvageria, móveis por um corredor apertado, a aparência de constante anarquia – mesmo quando tudo é assumidamente indolor e mesmo infantil.

Lester dá vida a um cinema tão livre quanto o de Jean-Luc Godard – guardadas as devidas diferenças. O que se vê, em ambos, é a aparente ausência de compromisso com situações e personagens, a vida feita de aventuras, o movimento em círculos, o flerte constante com a comédia física e palavras inesperadas, além de legendas na tela.

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Enquanto o francês é mais radical em relação à linguagem, sempre de olho em referências do passado, Lester aponta a uma Inglaterra em tempo de mudanças, à liberdade de não se fazer nada – ou parecer isso – enquanto se fazia tudo, ou muito.

As meninas davam o tom da moda, silenciosas, rostos de boneca – muitas vezes servindo apenas à onda de uma juventude sem vida, massa para pisotear um dos rapazes ao fim. Não por acaso, as mesmas meninas que viriam a aporrinhar o desiludido fotógrafo de Blow-Up, de Michelangelo Antonioni, lançado um ano depois.

As modelos posam para fotógrafos. Velhas construções transformam-se em novas vitrines. Para Lester, um novo mundo ergue-se entre o velho. A grande casa em que vivem suas personagens é constantemente reinventada e bagunçada.

Como os Beatles do filme anterior, esses quase rebeldes não precisam de qualquer desculpa ou sentido para se aventurar; estão alheios ao mundo real, vivos pela conexão com qualquer bobagem que talvez seja mais profunda do que pareça.

(The Knack… and How to Get It, Richard Lester, 1965)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Os dez melhores filmes de Jean-Luc Godard

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