Dois faroestes spaghetti de Giulio Petroni

As diferenças aproximam as personagens de A Morte Anda a Cavalo e Tepepa, assinados pelo cineasta Giulio Petroni. Em ambos há três tipos de homem: o típico herói movido à paixão, a personagem cômica tragada ao destino revolucionário (à causa maior) e o pistoleiro experiente que pode encontrar a redenção.

No primeiro, de 1967, é Lee Van Cleef quem confere a sabedoria dos vívidos, à maneira das personagens de Sergio Leone, que parecem saber de tudo e, ainda assim, ora ou outra terminam presas e torturadas. Enxergam o mundo do alto. No segundo, de 1969, o sábio é desleixado, sorridente, o revolucionário mexicano que dá nome à obra.

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Petroni mergulha na sujeira desses homens. Ao mesmo tempo, apresenta personagens estreitas e secundárias, dotadas de consciência: são vingadores louros, um pouco à forma dos heróis do faroeste clássico, à contramão de quase todo o resto.

Em A Morte Anda a Cavalo, um garoto presencia a chacina de sua família, sobrevive, cresce e, mais tarde, arma-se e treina para encontrar os criminosos. Bill (John Phillip Law) esbarra em Ryan (Cleef), que, por acaso, acabou de sair da prisão.

Entre sequências cômicas e tiros certeiros, em bares lotados de homens sujos, faladores, e também de mulheres belas e com decotes à mostra, os pistoleiros descobrem que perseguem o mesmo bando – mas por diferentes motivos. Desnecessário dizer que o experiente Ryan importa-se com o dinheiro, ao contrário do jovem Bill.

Em Tepepa vê-se algo mais confuso, uma trama mais interessante. A personagem-título, ao contrário dos homens da fita anterior, assume-se anti-heroica completa, desajustada entre uma revolução. É considerada lenda já no início e, encarcerada, logo será resgatada por um soldado inglês vagando dos dois lados do conflito.

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Ambos se movem por paixão. Tepepa, interpretado na medida por Tomas Milian, pela paixão a seu país, à causa revolucionária; no caso do médico inglês Henry Price (John Steiner), por vingança, pela missão de encontrar e matar o próprio Tepepa.

Histórias pessoais casam-se às questões sociais e históricas. Em A Morte Anda a Cavalo, é possível ver os criminosos agindo como homens da política – e pelos homens da política – para ganhar grandes quantidades de dinheiro. Há sempre o povo pobre e oprimido, ao fundo, como se pode ver também na obra seguinte de Petroni.

São esses seres ao centro – em oposição aos seres ao canto, reais, sem interpretações – que fornecem o exagero – e, em certa medida, a adorada ficção – aos dois espetaculares faroestes. A comédia encontra a ação de características únicas do chamado “faroeste spaghetti”, subgênero que marcou época e do qual saíram grandes filmes.

A Morte Anda a Cavalo abusa das linhas clássicas do gênero mítico: o vingador talhado ao jeito americano, em busca de justiça; os duelos olho no olho, mais de uma vez, nos salões de jogos, bebidas e mulheres; o pistoleiro experiente que tenta se distanciar do passado; os sinais do suposto progresso, quando homens tentam aplicar a lei.

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O outro se situa no chamado “faroeste Zapata”, ou seja, passado na Revolução Mexicana. Seu protagonista errante oferece saídas às situações impensáveis, sem que ele próprio tente se redimir. Ao contrário: o filme assume linhas nada agradáveis.

Os piores tipos estão por ali, a começar por Tepepa: homens machistas, de um meio patriarcal, entre revolucionários e soldados. Todos imperfeitos. O britânico em busca de vingança poderia ser, em outro caso, o antagonista civilizado, mas ele próprio não aguenta: embrenha-se tanto na revolução que revela sua selvageria peculiar.

O olhar estrangeiro é fundamental para desmistificar o revolucionário, e entregar ao espectador o verdadeiro Tepepa. Pelo outro, o anti-herói é sempre repugnante, chegado ao abuso de mulheres indefesas. O britânico leva o público sempre ao olhar particular, individualizado, à criança sem pai que fica sob sua proteção; já o revolucionário volta-se ao coletivo. Ao fim, a mesma criança terá de escolher qual lado seguir.

O vilão de Tepepa é interpretado por ninguém menos que Orson Welles, especialista em coadjuvantes repulsivos. É a representação viva dos militares de postura abusiva, o gigante lento, gordo, em contraponto ao povo chicoteado. Petroni, aqui, prefere um faroeste sem heróis, o que o torna raro entre outros do mesmo gênero.

(Da uomo a uomo, Giulio Petroni, 1967)
(Idem, Giulio Petroni, 1969)

Notas:
A Morte Anda a Cavalo:
★★★★☆
Tepepa: ★★★★☆

Foto 1: A Morte Anda a Cavalo
Fotos 2 e 3: Tepepa

Veja também:
Quando Explode a Vingança, de Sergio Leone

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