O Contador, de Gavin O’Connor

O quebra-cabeça proposto em O Contador beira a “perfeição” e, por isso, incomoda. Perto do fim, o roteiro de Bill Dubuque precisa encaixar todas as peças. Soa um pouco falso, um pouco como a personagem central, uma incongruência.

Trata-se de um matemático brilhante, ao mesmo tempo um matador profissional. E o filme, de Gavin O’Connor, não sabe o que fazer com essa incongruência, com essa mescla de gêneros. Pende ora ao suspense de fórmulas matemáticas, com o anti-herói sob o ar irretocável do gênio, ora à fita de ação com tiros e mortes em excesso.

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A falta de concordância pode ser vista no ator central, Ben Affleck, na pele de Christian Wolff. Pior é constatar que nele não funciona nem o gênio nem o assassino. Affleck outras vezes foi um canastrão de primeira e, à medida que avançava com filmes interessantes, a começar por Argo, solidificava outra imagem.

O Contador é um passo em falso, filme estranho que não se resolve, não se fecha. Não se fala aqui de um fechamento ligado ao roteiro. Ao contrário: o roteiro busca uma saída, uma nova volta, a cada momento em que a obra parte para o desfecho.

O que menos se vê nessas tantas voltas é emoção – a despeito das tantas cenas movimentadas, de inúmeras situações que clamam pelo êxtase do espectador. Ainda que algumas imagens impressionem, erra ao impor essa falsa aparência simétrica.

Wolff teve de viver com o pânico de ser diferente. Irônico, então, seu futuro: tornou-se justamente o que temia seu pai, um militar, mas soube como esconder isso. Ele vive uma vida dupla. Às aparências, um contador de classe média resolvido financeiramente, com sua casa e caminhonete. Não tão longe dali, em uma garagem, no interior de um trailer, ele atinge outras camadas: torna-se contador a serviço de criminosos.

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A infância é importante para tentar entender essa incongruência: autista, ele sempre teve grande habilidade com números. Decidido a tornar o filho alguém “normal”, ou apenas pronto para enfrentar a vida e seus homens malvados, o pai passa a treiná-lo.

Torna-se bom com golpes, com armas, além da habilidade com números. É importante não se deixar enganar: trata-se de um filme de ação. A abordagem do gênio possibilita que a trama pareça um pouco mais do que correria, feita com certa “profundidade”.

Em seu refúgio secreto, no trailer, Wolff contempla quadros de pintores famosos. Os originais chegam a ele como pagamento por seus trabalhos. O estranho protagonista de Affleck prefere números a dinheiro vivo. A arte e suas abstrações, em formas que não podem ser explicadas por cálculos, oferecem-lhe outro caminho.

Nem o encontro com o amor (Anna Kendrick) poderá mudar a personagem. Ao menos nesse ponto o filme acerta: o herói não se rende à “vida comum” da bela menina. Segue como sempre foi e, mais tarde, precisa encontrar uma nova vida longe dela.

(The Accountant, Gavin O’Connor, 2016)

Nota: ★☆☆☆☆

Veja também:
Argo, de Ben Affleck

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