Mais Forte que Bombas, de Joachim Trier

Frieza e lentidão definem Mais Forte que Bombas, de Joachim Trier. Essas características, no entanto, não levam necessariamente a um filme ruim. Elas fazem parte de um cinema centrado em seres perdidos, um labirinto repleto de desesperança, cujos arroubos custam a aparecer.

A qualquer movimento brusco, a reação do espectador é semelhante à da personagem de Jesse Eisenberg, o professor Jonah, ao ver o irmão dançando, em seu quarto, ao som de alguma música estranha ao ambiente branco e frio, àquelas pessoas apáticas.

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É, por isso, um susto, ou uma sinalização de vida – apesar dos opostos. A obra de Trier centra-se em uma família com dificuldade para dialogar, marcada pela morte da mãe (Isabelle Huppert), que se suicidou ao lançar seu carro contra um caminhão.

Por que ela fez isso? As respostas – sempre incertas – servem-se do ambiente, o mesmo espaço gélido percorrido pelas personagens. E por isso não é possível tirar conclusões fáceis. Trier prefere lances frios, falas ponderadas, baixas, gente impotente.

Sobre incomunicabilidade, sim, mas antes sobre o fim da unidade familiar, sobre os cacos anunciados pela colisão do veículo, no momento da morte da mãe: todos esses estilhaços compartilhados com o espectador, em câmera lenta, anunciam o efeito daquele suicídio aos outros, os filhos e o pai que tentam tocar a vida e fracassam.

Termina em uma estrada, uma viagem. O caminho de novo é incerto. No filme anterior de Trier, o ótimo Oslo, 31 de Agosto, o fechamento não dava qualquer brecha à esperança. Ambos, é verdade, tratam da memória, mas por meios diferentes.

Oslo leva à estrada fechada, ao ponto inicial: o protagonista é também o suicida. Mais Forte que Bombas mostra os efeitos desse suicídio: suas personagens precisam lidar com os reflexos, evidentes ou metafóricos, desse ato aparentemente irracional.

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Pois os reflexos surgem como respostas, ainda que um pouco opacas. O reflexo do pai no balcão da padaria, quando o filho tenta flertar com a menina de sua classe; o reflexo do amante da mãe, em um quadro, em uma das fotos perdidas no computador. Esses estilhaços – com seu poder refletivo – não deixam que escapem ao drama.

O pai e o filho mais velho talvez desejem fugir, esquecer, ao passo que o filho mais novo sempre é tragado ao centro, como se quisesse – mesmo à revelia – apagar o que ocorreu. Ao colocar um saco plástico sobre o rosto, gesto suicida, ele remete à fúria incontrolável da mãe, como protesto àqueles que preferem não enxergar o drama.

É a forma de gritar. A escrita é outra. O filho mais novo, vivido por Devin Druid, é o mais afetado pela mudança. Sua condição adolescente situa-o ainda mais ao canto, circulando entre todos como se estivesse sozinho, com seu fone de ouvido.

E o pai (Gabriel Byrne) tenta se aproximar, explicar talvez o que ele mesmo não saiba, com palavras presas. Termina sempre a colocar uma nova curva no labirinto ao qual o menino já foi lançado – enquanto o filho mais velho, próximo, precisa encarar o fato de ser também um pai, de ter uma nova família, e não saber lidar com isso.

Em redemoinhos que parecem levar a lugar algum, Trier dá vez à frieza, à ausência de cores fortes, de qualquer elemento de exagero, e por isso opera próximo ao niilismo. Se não chega a tanto, é porque suas personagens ainda guardam esperanças, são ainda capazes de chegar à saída desse labirinto.

(Louder Than Bombs, Joachim Trier, 2015)

Nota: ★★★☆☆

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