Dietrich: mulher de outro mundo

É verdade que nem todos os homens são idiotas completos quando estão próximos de Marlene Dietrich. São simplesmente apequenados. Não dá para alcançar a estatura da diva – nem quando se é um Gary Cooper ou um Cary Grant.

E é verdade que a mesma Dietrich sofreu pelos homens, entregou-se ao desespero e talvez à própria morte por amor a eles – o que o encerramento de Marrocos, segunda parceria da atriz com o grande diretor Josef von Sternberg, não deixa mentir. Pelo homem que ama, segue deserto adentro, sem destino.

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Dietrich realizou sete filmes com Sternberg. Obras grandes, inesquecíveis, a começar pela primeira, ainda na Alemanha às vésperas do nazismo, O Anjo Azul. Lola Lola marcou época. Em cena, no cabaré, ela define a imagem pela qual seria marcada por toda a vida: a bela sobre o palco, a seduzir homens entre o público.

A personagem de Emil Jannings fica de joelhos por ela ao ir ao cabaré descobrir o que tanto desvia o olhar de seus alunos, o reduto de libertinagem. Ao argumentar que a dama estaria corrompendo seus pupilos, o professor tem uma resposta no tom da obra: “Mesmo? Você acha que administro um jardim da infância?”.

O tipo da personagem colaria na atriz. Em Marrocos, ela beija uma mulher do público, enquanto canta, para o delírio dos soldados – entre eles Gary Cooper. Nem mesmo um cínico e vacinado Cary Grant resistiria a ela em A Vênus Loura, de novo sob a batuta de Sternberg e no qual a mesma fica entre a vida em família e a dos palcos.

Poderá morrer pelos homens, ser fuzilada, como em Desonrada. O cinema de Sternberg é feito de excessos visuais e temáticos. Os ambientes forjam um mundo à parte, único, o que fez com que o diretor – judeu austríaco e, por isso, com asco a Hitler – encontrasse terreno perfeito nos estúdios americanos, com seu potencial para a ilusão.

O que pode ser visto na última parceria com Dietrich, Mulher Satânica. É no misto de drama e comédia que a atriz recorre ao máximo de seu efeito destrutivo, quase sempre vista pelos olhos dos homens (um deles em especial, a personagem de Lionel Atwill) e, por isso, pronta a revelar a infantilidade daqueles que duelarão por ela, a certa altura.

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Sternberg apela ao máximo do exotismo e da luxúria. Ambienta-se na Espanha, em dias de carnaval, quando todos se escondiam em máscaras – para o arrepio da polícia e alegria dos criminosos. A atriz interpreta Concha Perez, especialista em dobrar homens.

O que ela faz? Não é uma prostituta, é certo. Ela escolhe, não é escolhida. E os homens não se importam em sacar polpudas quantias de dinheiro para alimentá-la – ainda que esse dinheiro sempre chegue às mãos de terceiras, a mãe ou a tutora. Concha está em uma zona de conforto: seu único papel é cantar e destruir, e ainda rir dos homens.

Eles não sabem se explicar: reconhecem a desgraça certa, a mulher satânica, mas nada podem fazer. Continuam a persegui-la, perdendo a patente e a própria vida. Concha ainda ri, ao fim, quando acende o cigarro e, em seguida, parte em sua carruagem.

A atriz foi um mito possível ao cinema clássico, antes da ansiedade do realismo. Foi levada para Hollywood sob a encomenda da Paramount para fazer frente a uma grande estrela da rival Metro, Greta Garbo. Ambas encarnavam mulheres intocadas. A vantagem de Dietrich é que poderia ser má – enquanto Garbo era quase sempre trágica.

Tinha a carne que faltava à rival. Difícil, por exemplo, imaginar Garbo entre pistoleiros embriagados, em uma comédia como Atire a Primeira Pedra. Pois para Dietrich isso era possível sem que renunciasse à imagem que construiu nos filmes de Sternberg. Com ela, ninguém pode reclamar do interminável desfile de homens idiotas.

Foto 1: O Anjo Azul
Foto 2: Mulher Satânica

Veja também:
Marilyn, por Norman Mailer

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2 comentários

  1. Bom dia. Caro amigo, você poderia, por favor, ao menos uma vez por semana, escrever resenhas de filmes tão extensas e detalhadas quanto o Diário do Moretti, Filmes para doidos e Eugênio em filmes ou a Wikipédia em inglês e o IMDB? Muito obrigado. PS: você aceitaria sugestões de filmes para futuras resenhas? Um forte abraço.

    1. Obrigado pela sugestão. Entendo que cada espaço tem sua forma de escrita e seu estilo, mas tentos longos e com fôlego são sempre bem-vindos. Abraços!

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