Amor & Amizade, de Whit Stillman

As palavras da viúva Susan Vernon (Kate Beckinsale) revelam mais que suas expressões. Difícil mudar o tom. Seu convencimento mostra o quão articuladora pode ser, com voltas e mais voltas em sua busca por conforto, homens e novos castelos.

Em um meio no qual a palavra certa dita o vencedor, Susan está no topo da cadeia alimentar – ainda que selvageria passe longe de Amor & Amizade, dirigido pelo talentoso Whit Stillman a partir da obra Lady Susan, da escritora Jane Austen.

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As más intenções são tão sutis que logo se vê um filme único: raposas como Susan não querem se revelar, vivem de aparências; os homens talvez saibam, no fundo, que estão sendo enganados; e as outras mulheres – rostos de bibelô – assumem-se derrotadas.

Algumas personagens estão apenas de passagem. O filme beira o episódico, com rostos e legendas. Deliciosa comédia romântica cuja malícia não é por completo revelada, que começa quando tudo já teve início e termina quando algo ainda deve acontecer – e quando todos seguem como sempre foram, a celebrar.

É um filme de pecados ocultos, de sugestões, de ironia fina demais a um público tão acostumado ao dramalhão e às explosões – físicas ou emocionais. Sua comédia vem da sutileza, do não dito, da pequena expressão da qual emergem seres humanos.

Ao longo dessa jornada por castelos e cômodos à luz agradável, Susan serve-se de leveza. O público não conseguirá odiá-la em momento algum. O filme dispensa vilões e grandes reviravoltas; prefere o painel, com direção segura e minimalista.

Econômico, Stillman às vezes abre mão das palavras. E não raro o verbo indica justamente o oposto. O jogo cinematográfico permite saber mais em mínima ação. Em uma sequência interessante, por exemplo, o espectador descobre a aproximação entre o jovem Reginald (Xavier Samuel) e Susan com apenas um corte, quando ambos caminham pelo campo, no castelo da família dele.

Em meio à fauna tão variada, golpes dramáticos são dispensáveis. O cineasta confunde, seu filme é quase um enigma. Difícil saber a origem da grandeza, como nos filmes de Eric Rohmer. Ao dizer tanto com tão pouco, Amor & Amizade evoca um meio no qual a elegância é sempre destacada, no qual inocentes quase não conseguem gritar.

(Love & Friendship, Whit Stillman, 2016)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
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