Inferno, de Ron Howard

A cada observação sobre antigas obras e enigmas ocultos, Robert Langdon (Tom Hanks) mais parece alguém com poderes sobrenaturais que um professor. A edição abrupta, veloz, corrobora a ideia. Inferno, a nova aventura da personagem, é mais uma investida à corrida desenfreada, menos à conexão entre pessoas.

Por isso, o diretor Ron Howard, de novo, está a serviço da ação. Nem seu Langdon pensante obedece à calma: após perder a memória, ele é ajudado por uma jovem médica (Felicity Jones) a decifrar um enigma por trás do Mapa do Inferno de Botticelli, o que o levará a combater um vírus que pode colocar boa parte da raça humana em perigo.

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Enigmas sobrepõem-se à aventura. A cada minuto, uma surpresa nova, ou uma reviravolta, é quase obrigação. O público é estimulado não por uma narrativa feita da natureza das grandes tramas de suspense, dos grandes filmes, mas moldada à força por personagens sem empolgação, com Hanks entre o gênio e o abobalhado.

Personagem conhecida: é a única que pode salvar a humanidade, carismática e inocente, longe do cinismo. O herói americano irretocável e camarada, a quem qualquer suposto tropeço é apenas a passagem para a redenção, com a chegada à chave do enigma.

Langdon acerta quando se tratam de símbolos e pistas. Fracassa na relação com os humanos. Não há química entre ele e sua parceria, Sienna Brooks (Jones). A separação de ambos sequer traz dor; a essa altura, é apenas uma das várias reviravoltas.

Não dá para negar que o filme é movimentado. Mas nem sempre o movimento constante leva a algum interesse, ou a mero entretenimento. Inferno deixa-se tomar pelo pecado de O Código Da Vinci, de 2006, também a partir de um livro de Dan Brown: a necessidade de estimular o público a todo custo, uma ramificação de Jason Bourne.

No entanto, a série Bourne tem a correria como premissa. A descoberta de si próprio é uma necessidade, e a única realidade que Jason Bourne conhece (ou quase isso) está justamente na ação. Esta lhe é inerente. Não é o caso do pensante Langdon.

E ainda que a personagem de Hanks, aqui, inicie sua maratona com parte da memória perdida, o efeito não é o mesmo. Ao contrário, é pior: sua zona de transformação é inconvincente. Resta, por isso, a velocidade, e – entrecortada por imagens de um inferno de sonhos, com fogo, demônios e ondas de sangue – apenas ela é quase nada.

(Idem, Ron Howard, 2016)

Nota: ★★☆☆☆

Veja também:
A Trilogia Jason Bourne

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