O Homem de Ferro, de Andrzej Wajda

No fim de O Homem de Ferro, uma personagem é sacrificada não antes de impedir que sacrifiquem sua própria consciência: ela toma o telefone e pede que comuniquem seu chefe, na rede de televisão estatal polonesa, sobre sua demissão.

É a resposta do cineasta Andrzej Wajda ao poder que tenta controlar a comunicação: podem levar das pessoas até certa obediência, não a liberdade de pensar.

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Nesse grande filme, o diretor polonês retoma a história iniciada (e não concluída) em O Homem de Mármore, lançado quatro anos antes, em 1977. Essa jornada tem início com a descoberta de uma velha estátua, em um museu, e termina com um pedaço de ferro sem vida, próximo ao local em que um homem morreu. O mármore e o ferro remetem ao mesmo homem, como mito ou como parte de um ambiente esquecido mas real.

Wajda, no início e no fim, obriga o espectador a observar as formas da ausência de humanismo ou as de seu excesso: o ponto da história em que o mito desfaz-se, dando vez ao homem, ou à menor forma que o represente. As estátuas tornam-se desnecessárias. O cinema, em oposição, oferece humanismo, diz Wajda, e contra ele emerge a propaganda estatal da época, forjada pelo governo polonês.

Move esses filmes o desejo de desconstruir o mito do operário padrão. Ele ocupava o centro de O Homem de Mármore e se chamava Birkut (Jerzy Radziwilowicz). Em O Homem de Ferro, um jornalista busca o filho desse líder, também convertido em sindicalista quando explodem as famosas greves de 1980, com Lech Walesa à frente.

O filho, Maciej (também vivido por Radziwilowicz), esteve nos movimentos estudantis de 1968, não nas lutas dos operários em 1970. Participar dos movimentos de 1980, para ele, é uma resposta ao pai, que se recusou a ir às ruas em 1968 e terminou morto nos conflitos seguintes, dois anos depois. As voltas da História não são obras do acaso, aponta o humanista Wajda. Tampouco o cinema deixará parecer assim.

No caminho de Maciej está a cineasta Agnieszka (Krystyna Janda), que tentava descobrir, no filme anterior, o homem por trás da estátua de mármore, o trabalhador convertido em símbolo da “maravilha comunista”, depois acusado de traição.

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A cineasta une-se a Maciej, tornar-se sua mulher, termina presa. A certa altura de O Homem de Ferro, o condutor da história entrevista-a na prisão. Wajda muda o foco: de investigadora, Agnieszka passa a investigada e contribui a esse quebra-cabeça.

Ela cita algo esclarecedor na sala apertada e gélida do cárcere: “Uma vez presa, você não precisa mais se preocupar em fugir”. Em outras palavras, ou se aceita a prisão ou se tenta fugir. E não se fala apenas de prisão física. O Estado opressor desejava “homens de ferro”. “Por que você visita locais que deveria esquecer?”, questiona um membro do poder, ao visitar Maciej e intimidá-lo. A pergunta remete a 1984, de Orwell: a tentativa de apagar a memória e dominar (falsificar) o passado.

Se em O Homem de Mármore há o homem por trás da estátua sem vida, em O Homem de Ferro a busca é pela configuração do novo homem. Mas o novo mito, Maciej, nasce de outro efeito, com outra matéria, quando trabalhadores dão início à greve.

A História sempre encontra brechas para revelar a verdade, mesmo quando o olhar é o do mais improvável herói. Wajda prefere humanos errantes, às vezes o fraco, com ironias e falsidades. A História é feita de carne e osso, forjada por pontos de vista. O Homem de Ferro contraria seu título bruto: é uma história de amor.

(Czlowiek z zelaza, Andrzej Wajda, 1981)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Andrzej Zulawski (1940–2016)

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