A Passageira, de Salvador del Solar

O táxi fornece proteção. Um bloqueio contra o ambiente externo. No banco de trás do veículo, a câmera está presa a um único eixo enquanto a edição oferece diferentes locais, do lado de fora, alternados aos olhos do taxista, em mais um dia de trabalho.

É a rotina do protagonista, antes um militar a serviço dos poderosos, agora um taxista. Esse faz-tudo ainda serve de criado para seu coronel impotente, na cadeira de rodas. A Passageira, de Salvador del Solar, oferece primeiro esse homem à margem, cuja vida – quase resumida a um pequeno quarto, à solidão – não tem mais sentido.

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É pela passageira, a garota que pensou ter esquecido, que ele encontra um sentido: a tentativa de reparar o passado, de ajudar essa menina que foi abusado pelo coronel no tempo dos militares. O tempo que chega é outro: os problemas passaram dos conflitos entre diferentes, entre ideologias, ao conflito originado pelo dinheiro.

O filme trata da memória, da tentativa de reparar o passado. Os crimes dos militares de novo deixam feridas abertas. Aqui, Magallanes (Damián Alcázar), o taxista, acredita que pode ajudar a menina com uma boa quantia de dinheiro. Crê, pobre homem, que poderá extorquir o coronel, por meio de seu filho advogado, para se vingar.

Mas Magallanes também era um militar. Taxista, nessa nova roupagem, ele tenta negar o que era, ou apenas se desvencilhar da antiga personagem. Não suporta quando um velho amigo, outro militar, diz que sente saudades da época em que eram fortes.

Nesse novo tempo, vê-se Lima, no Peru, tomada pelas pessoas em seus pequenos negócios, com meninas a vender celulares na porta dos carros, com palestras motivacionais voltadas a formar novos vendedores. O poder é do dinheiro.

E isso explica por que o amigo, o dono do táxi, sente-se tão fraco em seu comércio, com sua mulher, no qual nada parece acontecer. Apenas cobrança, apenas o que o mesmo dinheiro – do táxi, das corridas feitas pelo amigo – devolve-lhe no fim do dia. Um espírito de sobrevivência sem força, quase velado, à maneira das relações comerciais.

A ideia de paz, contudo, é ilusória. Os poderosos militares e seus descendentes estão ricos, em grandes casas, em carros caros, e com seus criados. A massa que emerge da aparente bagunça busca sua colocação no sistema. Já Magallanes está em uma posição diferente: é o que restou de um tempo perdido, quase um fantasma entre os outros.

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Por isso, a profissão de taxista serve-lhe bem: ao mesmo tempo em todos os lugares e em ponto algum, sempre em deslocamento e sem nada a fazer senão esperar o dia passar para devolver o carro e seus trocados, para depois voltar ao pequeno quarto.

A polícia serve os poderosos. A justiça é ilusória. E isso se desenha quando Magallanes acredita ter o plano perfeito para arrancar dinheiro do filho do coronel, ao reviver uma antiga fotografia na qual o líder militar aparece com uma adolescente e com uma garrafa em mãos, seu troféu. Mas o verdadeiro prêmio, bem sabe o público, é a garota.

É a imagem que resume as tensões sociais: a garota índia no colo do militar. O abuso, o poder, a embriaguez – tudo percorre aquela foto revivida, dessa vez como instrumento para extorsão e, acredita o protagonista, arma para corrigir problemas passados.

O que se tirou das vítimas, entre elas a garota, não pode ser recuperado. Magallanes demora a descobrir isso. Em um momento de descanso, ele observa a paisagem feita de pequenas casas, nos locais – a periferia – em que se volta ao trabalho, nos quais os clientes primeiro perguntam o preço para depois aceitar a corrida de táxi.

O protagonista torna-se um criminoso. O diretor oferece uma viagem em busca de significado, cheia de suspense, uma narrativa que prefere ocultar pequenas passagens, mas uma jornada que só se realiza sob os sinais da violência. Nessa sociedade de inversões, o criado dos militares terminará como começou.

O filme não perde o fôlego em momento algum, deixando de lado personagens distantes. Ao contrário, e apesar de seus pecados, a começar por Magallanes há um homem que não se esconde, de face limpa, sem barba e com cabelo curto, que não suporta o passado.

(Magallanes, Salvador del Solar, 2015)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
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