Deus Branco, de Kornél Mundruczó

A garota é sempre questionada sobre a raça de seu cão. Animais mestiços são pouco valorizados, vivem pela rua, sem destino. Sobrevivem.

O cão, Hagen, é às vezes chamado de vira-lata, ou qualquer sinônimo para algo descartável. Ao longo de Deus Branco, ele é retirado da dona, encontrado por um mendigo e depois treinado para rinhas.

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O destino de Hagen é o dos excluídos. O paralelo com os humanos é inevitável: quem representa o deus branco ao qual o título refere-se? É a principal questão evocada pelo filme de Kornél Mundruczó. Trata de racismo, de excluídos, mestiços.

O deus branco é todos os outros, os homens que rejeitam ou exploram Hagen: o pai da menina, o mendigo, comerciantes, treinadores. Mais tarde, os funcionários do abrigo municipal ao qual o cão é levado – para ficar com seus pares, outros animais.

Com imagens fortes, o filme de Mundruczó tenta conferir sentimento aos animais, o que nem sempre é fácil forjar: mais de uma vez parecerá falso, artificial, sobretudo nos momentos em que os bichos são perseguidos pelas autoridades do abrigo para cães.

Evidente, cada vez mais, que a situação desses excluídos – a começar por Hagen – serve à representação. Não são verdadeiros. Não por acaso, a abertura – com um bando de cães atrás da garota, em sua bicicleta – é, antes, um pesadelo.

E não é. A mesma situação repete-se, mais tarde, quando esses cães resolvem se rebelar contra os homens que os aprisionam. Um levante de oprimidos. Como Hagen, deixam de ser bons e obedientes. Aderem à vingança, passam a matar.

A responsabilidade ora ou outra recai sobre os homens, o deus branco. Os homens transformam os mestiços em seres violentos. As vítimas são os bons selvagens convertidos à maldade pela presença dos outros, da cidade, de sua corrupção.

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Falta amor, diz Mundruczó – ainda que possa parecer clichê. Amor que a menina Lili (Zsófia Psotta) pode oferecer. Seus problemas têm início quando a mãe sai em viagem e a deixa aos cuidados do pai. O prédio em que o homem vive não aceita cães.

As transformações de Hagen logo se estendem à garota. Ele não é o único que muda, ou que é brutalizado. Após comprar briga com seu professor de música, ela consegue retornar às suas aulas mais tarde. Ali, mantém proximidade a um dos rapazes da orquestra. À frente, vai a uma festa na companhia dele, bebe, é detida pela polícia.

Enfim, vive conflitos da pré-adolescência. O cão vive outros, sem saber nada sobre o espaço ao redor: não conhecia qualquer tipo de sentimento senão o da antiga dona. Quando se reencontram, na parte final, uma distância natural se impõe.

O que os une, ou o que torna a convivência possível, mais tarde, é a música. A menina toca trompete na orquestra. E depois utiliza o instrumento para acalmar os animais, que se deitam enquanto ouvem a melodia. A sensibilidade da menina é o canal para ver o que todos os outros não conseguem, entre eles seu pai.

A obra é dedicada à memória do mestre Miklós Jancsó, autor de filmes poderosos como Vermelhos e Brancos. Mundruczó fala de individualidade enquanto testa o espectador em um misto de realismo e falsidade, seres bons e barbárie.

(Fehér isten, Kornél Mundruczó, 2014)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Jogo do Dinheiro, de Jodie Foster

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