Bob, Carol, Ted e Alice, de Paul Mazursky

A dificuldade em lidar com as mudanças – ou simplesmente experimentar – promove algumas voltas por grupos, quartos, festas, psicólogos e, ao fim, pela cama à qual vão as quatro personagens de Bob, Carol, Ted e Alice, de Paul Mazursky

O filme teve certa relevância no fim dos anos 1960. Era um momento de troca, de liberdade: uma satisfação encontrada em simplesmente trair sem culpa, às claras, quando o que estava em jogo era o prazer sexual. Isso explica porque as personagens, ora ou outra, dizem “eu te amo” – sobretudo uma mulher à outra – ao longo da história.

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Tudo tem início quando Bob (Robert Culp) e Carol (Natalie Wood) passam um tempo com um grupo de pessoas no alto de uma montanha. Libertinas e curiosas, elas desejam descobrir a si mesmas. Amar é uma regra, observar o outro também.

O resultado é a mudança, aparentemente para melhor. Depois de traições reveladas entre si, o casal Bob e Carol passa a relatá-las aos amigos Ted (Elliott Gould) e Alice (Dyan Cannon), mais interessantes, engraçados e desajeitados. A liberdade confronta-os.

Há equilíbrio entre esses casais. Enquanto o primeiro representa o passo à frente, o segundo mostra culpa e medo de experimentar. E mesmo quando o segundo adere ao prazer, deixando a culpa de lado, a entrega mais parece brincadeira, pura diversão. Prevalece um mundo colorido, um cinema que não chega a ser ousado.

A canção, ao fim, não deixa mentir: o mundo precisa de amor. Prevalece a amizade. Não há mentiras. Em cena, um estilo de vida que se aproxima do modismo: fazer o que os outros fazem, o que está na crista da onda, porque talvez isso gere felicidade, uma busca constante. Um filme que reproduz a ideia e os desejos de uma época.

Sobram amostras de uma vida sofisticada, de modernidade. Bob e Carol vivem felizes em uma grande casa, com um belo filho, com uma piscina admirável na qual, nos fins de semana, banham-se outros casais. Têm tudo o que os outros têm e um pouco mais.

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Ele é cineasta e faz viagens a trabalho. Em uma delas, tem um caso rápido com uma loura bela e atraente; em outra, volta para casa e é avisado por Carol que há um segundo homem em sua cama, o professor de tênis da mulher (Horst Ebersberg).

À beira da piscina está a beleza incomum de Wood, perfeitinha demais, alguém difícil de imaginar entregue à sacanagem, ou à orgia final. Ainda com rosto de anjo, menina dos filmes clássicos anteriores, da dama que canta ao amado em Amor, Sublime Amor.

A moda do liberalismo seria abordada, depois, em Tempestade de Gelo, mas com o amargor do dia seguinte. Entre sequências que valem a lembrança está a da troca das chaves, quando os casais mudam de parceiros partindo de um jogo. O que certamente seria estranho aos casais de Bob, Carol, Ted e Alice, donos de um espaço a ser respeitado, um tempo para se permitir o avanço. Um mero diálogo.

Em uma sequência-chave, Ted vai a uma lanchonete e pede um copo d’água pelo interfone. O atendente começa a oferecer outros produtos, não entende que o cliente quer apenas o básico: um copo de água. A cena diz muito sobre a sociedade retratada. Pode se ter tudo, e tudo parece ao alcance de todos. Mas eles queriam o básico: viver com prazer.

(Bob & Carol & Ted & Alice, Paul Mazursky, 1969)

Nota: ★★★☆☆

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