Profissão: Ladrão, de Michael Mann

Os cofres arrombados por Frank (James Caan) não são o principal obstáculo em Profissão: Ladrão. Seu problema tem a ver com sua necessidade de independência, ao não se alienar a alguns chefões do crime. Ele quer ter seu próprio negócio.

Alguém como ele, um autônomo, não se importa em ganhar um pouco menos em nome da livre circulação entre clientes: é da própria natureza de sua nação, os Estados Unidos, esse desejo. E o filme de Michael Mann é sobre esse espírito livre.

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E não menos sonhador: o anti-herói aproxima-se do público – mesmo com seus ataques de violência – quando demonstra desejo pela vida confortável, o sonho americano. Quer uma bela casa, uma bela mulher, um filho – de preferência, um menino.

Frank preserva o faro dos empreendedores liberais, dos homens que se sentem bem ao olhar o oceano, pela manhã, após uma noite de arrombamento, ao lado de um velho homem que pesca por ali. A imensidão reproduz um caminho de possibilidades.

Na noite anterior, Frank abriu um cofre com a participação de seus dois parceiros fiéis. Seu trabalho é braçal. O filme todo se concentra em seus movimentos, em seu prazer em executar o crime. Mann aposta nesse esforço, em um bandido distante da malícia dos batedores de carteira do metrô: é um americano “trabalhador”, esforçado.

Ao abrir um desejado cofre, ao fim, ele faz questão de se sentar, observar aquele feito, a sujeira e a bagunça, enquanto fuma seu cigarro. Contente com a ação, apenas observa, com o rosto de felicidade voltado a nada. Talvez haja mais do que dinheiro em jogo.

Não ter acesso à personagem faz parte da construção do filme. O pouco que se sabe surge em uma história contada para sua companheira. Tudo o que Frank aprendeu sobre crimes se deve a outro bandido com quem conviveu na prisão. Foi detido por causa de 40 dólares. Matou outro homem na cadeia, acabou ficando mais tempo por ali.

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Ele tenta reduzir o tempo perdido ao confessar à nova companheira, em um único encontro, todos seus planos, suas metas, ao passo que ela rende-se àquele “batalhador”, àqueles olhos típicos de um empreendedor apaixonado, ao modo americano.

Oferece a ela, interpretada por Tuesday Weld, uma vida estável, um sonho. Logo, ao perder o interceptador que negociava seus materiais furtados, o anti-herói vê-se obrigado a fazer negócios com os homens do “andar de cima”. Leia-se: criminosos que encaram o jogo como uma velha instituição sólida e verticalizada.

A fotografia de Donald E. Thorin reproduz uma Chicago quase sempre opressiva, gélida, de luzes que recaem sobre o asfalto molhado, que refletem na lataria de carros enfileirados no outro negócio do protagonista, também um vendedor.

As imagens confrontam o homem em busca do paraíso. Nada remete a algo saudável, e não estranha se vier à mente a imagem da personagem de Al Pacino em O Pagamento Final, Carlito, que, em preto e branco, enxerga o oceano estampado em uma publicidade na estação de trem, no início e no término do filme de Brian De Palma.

Como Carlito, Frank busca a saída. A dificuldade reside no vício dos outros, no redemoinho do qual não escapa: há sempre alguém a fazer um convite para o último golpe. Os sonhos logo se dissolvem. À personagem de Caan resta aceitar ser quem sempre foi, como o estilo de vida do qual não se despregou: o de um criminoso.

(Thief, Michael Mann, 1981)

Nota: ★★★★☆

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