Segredos do Poder, de Mike Nichols

Sentir-se intoxicado pelos sinais da vida americana não é difícil em Segredos do Poder, de Mike Nichols. A começar pela expressão do candidato à corrida presidencial, o governador Jack Stanton (John Travolta), moldado ao jogo de aparências.

Um filme sobre política feita por políticos, homens de um mundo novo e estranho da propaganda. Há sempre o excesso, a dificuldade de esconder os pecados: há sempre alguma mulher a denunciar o candidato, a acusá-lo de sexo fora do casamento.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

segredos-do-poder1

Claro que ele rebaterá a acusação. Usará fieis escudeiros para buscar provas contrárias, ou para descobrir algo que possa acabar com a corrida do concorrente. No campo do poder vale tudo, mas Nichols não joga com o suspense ou com o drama.

Prefere a comédia, o jeito irônico do protagonista reservado, o candidato, e sobre o qual pesam dúvidas. Não é fácil acusá-lo. Ele mantém distância. Nichols faz uma radiografia do real, porque a verdade é sempre ocultada, sempre submetida à propaganda.

Até o fim, o sorriso falso de Travolta (perfeito para o papel) deixa perguntas. Seria apenas uma interpretação? Ou seria alguém que acredita no próprio papel a ponto de sequer perceber ser um canastrão, produto barato do marketing político?

Como A Grande Ilusão, de Robert Rossen, Segredos do Poder é contado pelo olhar de um jovem idealista. Ao político reserva-se a dúvida. Ao jovem, não se espera nada senão a ética, a maneira como se move em desespero, como se põe ao lado do espectador e oferece, sem surpresas, a segurança do olhar sóbrio (e talvez ingênuo).

Ao que parece, Henry (Adrian Lester) é escolhido para integrar a campanha de Stanton porque é negro, além de neto de um importante líder negro. É um estrategista de campanha, profissão à qual se lançam as raposas, não homens como ele.

segredos-do-poder2

O protagonista tenta se convencer de que o candidato realmente vale a luta: não quer embarcar nessa candidatura apenas para produzir e vender um produto; quer, antes, ter certeza de que o produto pode ser vendido sem que precise esconder defeitos.

Tudo indica que ele não sabe muito sobre a engrenagem das coisas, e que ainda crê naquele homem sorridente, no meio da noite, sozinho, comendo uma rosquinha em uma lanchonete cercada por luzes verdes, em meio à escuridão. É a essa lanchonete que o mesmo jovem negro segue, à contramão dos outros escudeiros, para ter o prazer de encontrar ali o homem simples, não o candidato viciado em palanques.

E Stanton pode oferecer esse lado, o que talvez denuncie a ilusão que lança sobre si mesmo: ele realmente crê na personagem que moldou durante décadas, que vestiu e da qual não se separou mais. Personagem que preparou para ser o novo presidente.

Diferente, assim, do Broderick Crawford de A Grande Ilusão, o caipira convertido em governador e que não esconde, em suas passagens por bastidores, ser um político sem qualquer escrúpulo. Stanton é de outra estirpe: é a propaganda viva.

Stanton é estranho, pacato, típico americano médio e camarada, casado com a “mulher perfeita” encarnada por Emma Thompson, a única que não precisa mais acreditar em seus discursos. Em um filme em que quase tudo é falso, colorido e desagradável, a companheira é material obrigatório ao candidato e possível presidente.

(Primary Colors, Mike Nichols, 1998)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
O Homem Que Queria Ser Rei, de John Huston

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s