O Homem das Flores, de Paul Cox

Personagens solitárias e próximas à arte fazem pensar no Burt Lancaster de Violência e Paixão, homem solitário e cercado por seus quadros no grande filme de Luchino Visconti. O protagonista de O Homem das Flores não é diferente: alguém sofrido, preso à imagem da mãe, incapaz de se satisfazer apenas pela carne.

Em linhas gerais, o filme de Paul Cox é sobre o conflito entre a contemplação e a experiência. Não é limitado a uma única personagem. Seu protagonista recluso, Charles Bremer (Norman Kaye), escreve cartas à mãe e, ao que parece, a si mesmo. As cartas retornam. Ele explica que se trata de uma forma de lembrar. Bremer representa a contemplação, o prazer em ver uma obra de arte, ou uma mulher.

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No outro ponto está Lisa (Alyson Best), jovem que se despe aos olhos do protagonista, paga para se exibir como um objeto, um quadro, ou como uma das flores cultivadas por Bremer no jardim.

Aos olhos dele, essas flores podem ser peças de arte, aqui sob o risco de serem esmagadas por um passo em falso. O Homem das Flores tem o homem como ponto central, mas é em Lisa que o público deverá experimentar a maior carga de experiências, de intenções que escapam – em oposição a ele – às palavras.

O filme tem início com uma pintura. Dá vez, em seguida, à moça em frente aos muros, às velhas casas e corredores dos subúrbios. Com tal quebra visual, Cox resume o que vem a seguir. E quando surge Bremer, o homem e a mulher já estão próximos, momento em que ela despe-se até ficar nua. Ele não a toca. Ela flerta, sorri e, aos poucos, parece envolvida pelo homem preso a si mesmo.

Em paralelo, Cox mostra essas personagens em suas vidas diárias: o homem na igreja, ao piano; a mulher no ateliê do namorado, David (Chris Haywood), dono de quadros que nada têm a ver com a ideia de beleza de Bremer. A certa altura, essas diferenças tornam-se saídas ao conflito – também à experiência física e à maneira encontrada pelo homem recluso para converter a morte em arte.

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O Homem das Flores centra-se nos conflitos de Bremer, que se lembra da bela mãe com pouca roupa, exibida e sexualmente desejada. O pai (o cineasta Werner Herzog) é autoritário e repreende o filho quando este toca o seio de uma mulher. O filho confronta-o: quebra uma vidraça e, quando o pai sai em sua busca, Cox enquadra ambos pelo buraco do vidro, pela marca do rompimento.

Sexualmente reprimido, levado a tocar estátuas, Bremer cresce à luz desse impedimento. Não tocará mais as mulheres, ao que parece, por causa da impossibilidade de tocar a própria mãe. Sinais religiosos estão ali não por acaso. Ao som do piano, Bremer volta-se às dores. Chora enquanto tenta tocar. Não consegue. Mostra sinais de fracasso. E a ópera dá tom trágico ao filme de Cox.

David, com sua arte abstrata e sinais de inconstância, confronta a vida de ares aristocráticos de Bremer, condenado a contemplar Lisa, a ser um homem de olhar, de observação – ou a metade de um homem, como ele mesmo confessa. “É a metade certa”, observa a moça.

(Man of Flowers, Paul Cox, 1983)

Nota: ★★★★☆

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