Ouro e Maldição, de Erich von Stroheim

Da mina em que trabalha, McTeague retira o jeito bruto dos homens ao redor, de seus antepassados. Sua forma poderia ser fácil de prever, mas ele ainda insiste em manter um bom coração. O desejo pelo ouro não lhe é imediato: o que se tem, antes, é o cuidado e mesmo o beijo ao pássaro ferido, encontrado entre pedras.

Tais contrastes antecipam informações preciosas sobre o que vem pela frente em Ouro e Maldição, de situações-chave àquelas pequenas passagens que, depois, ajudam a criar a desgraça ao redor da personagem central.

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McTeague nasceu condenado. É simples, grande, tem em sua gênese – representada no pai beberrão, ao lado de prostitutas em um bar – o início dos problemas. Nessa tragédia americana, a partir do livro de Frank Norris, é impossível fugir a velhos traços.

Por sinal, o cineasta Erich von Stroheim leva-os aos cenários que compõem a ideia desse país, de sua formação, de seus sonhos, de suas desgraças: o necessidade de enriquecer, de assumir uma posição importante, a ganância. Nesse filme, a podridão é entrecortada, como suspiro breve, pela imagem do velho homem patriota em marcha.

Começa e termina no velho mundo, a mina e o deserto, ambientes nos quais McTeague tenta salvar o pequeno pássaro – o menor inocente, ou o lado puro da personagem – da morte certa. Para ficar nos extremos, há o pai e a mãe, o boêmio com os traços de um buldogue velho e a mulher bondosa que sonha com o futuro próspero ao filho.

O amor é inevitável: o grandalhão ao centro da história, de cabelo encaracolado e avolumado, apaixona-se pela primeira mulher – além da mãe – que cruza sua vida. É Trina (Zasu Pitts), que precisa de um dentista após quebrar um dos dentes.

A essa altura, o protagonista já se tornou um dentista. Ele conhece a moça por intermédio do primo dela, Marcus (Jean Hersholt). Os homens amam a mesma mulher. O impasse é resolvido quando o primo resolve ceder e deixa espaço para McTeague.

O momento em que ele explode em felicidade, em meio à chuva, depois de roubar da amada seu primeiro beijo, é um daqueles exemplos perfeitos do cinema de Stroheim. A tempestade anuncia o pior, ainda assim não apequena o estado de espírito do homem; passa longe, vale dizer, de uma sequência expressionista.

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O cinema de Stroheim banha-se em realismo. O teórico André Bazin lembraria que o princípio da mise-en-scène do diretor é simples: “olha o mundo bem de perto e insistentemente para que ele acabe revelando sua crueldade e feiura”. Bazin, entusiasta do plano e das possibilidades da ação em seu interior, quando se dispensava a montagem, tinha motivos de sobra para elogiar a direção de Stroheim.

Em tempos nos quais os estúdios americanos solidificavam-se e as vanguardas europeias experimentavam certo radicalismo, elevando o cinema à condição de arte, o cineasta austro-húngaro recorria ao realismo, com monstros humanos.

É o que faz de Gibson Gowland o McTeague perfeito: tão calcado na inocência quanto na destruição, por isso em comunhão com a companheira, que se transforma.

Não são raras as confusões, a mistura de sentimentos, como no momento em que o protagonista deseja a futura mulher enquanto está desacordada, na sua cadeira de dentista. Não resiste ao aproximar o rosto, e termina a beijando. Ainda que possa soar, no mínimo, indelicado, difícil não ver a carga de sentimentos e delicadeza.

Volta ao ouro, à perdição. Ouro que escorre do barro, na mina, depois transformado em moeda, levado à cama da mulher. O material chega a ser um elemento erótico. Esse tratamento obscuro dado por Stroheim a uma história de contornos americanos seria, obviamente, repelido por muitos. Seu McTeague é estranhamente real.

(Greed, Erich von Stroheim, 1924)

Nota: ★★★★★

Veja também:
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