O Grande Gabbo, de James Cruze e Erich von Stroheim

As sequências musicais de O Grande Gabbo à primeira vista parecem deslocadas. De um lado está um mundo de músicas, de corpos, o palco preenchido pelos shows da Broadway, em Nova York. Do outro, Erich von Stroheim com sua armadura branca imperial, o militar deslocado sem qualquer inclinação à comédia.

E na companhia de seu boneco. Embalsamado, Stroheim é o europeu nesse mundo moldado a outro luxo, com certa malícia, distante da aristocracia. Os restaurantes confundem-se com salões de festa, ocupados por novos ricos e pessoas do mundo do espetáculo – cada um a representar seu espetáculo particular.

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Em suma, o ator e sua personagem, um ventriloquista, opõem-se aos seres ao redor. Sua única passagem àquele ambiente dá-se pelo boneco, seu elo, seu contato com esse meio de risos e festa: Otto, como é chamado, ganha vida própria, separa-se do mestre.

O Grande Gabbo é sobre essa divisão, à beira de um filme de terror que ousa se esconder, e uma fita que ousa, tristemente, esconder o que tem de melhor: Erich von Stroheim. É irônico: o que se tem de grande é sempre ele, alguém anacrônico.

A direção é creditada a James Cruze. Stroheim também dirigiu, mas não ganhou créditos. E, vale lembrar, este não é o típico trabalho de um gênio que produziu obras como Esposas Ingênuas, Ouro e Maldição e Marcha Nupcial. Stroheim sempre foi chegado à megalomania, à perfeição. Os números musicais despejados em paralelo não têm ligação com o que o mestre realizou antes. Não lhe pertencem.

Gabbo (Stroheim), por sinal, quer ser chamado de “grande”. Como outras personagens do ator e cineasta, é difícil não enxergar ali sua própria face, a verdade, ou mesmo a personagem que o próprio Stroheim criou para si – o “von” de armadura, o cavalheiro típico de tempos passados, alguém que reproduz em pele o “bigger than life”.

Não no sentido da expressão que cabe à atualidade, de pessoas enérgicas que fazem de tudo; ao contrário, Stroheim tinha energia contida, demônio silencioso próximo da loucura, com o olhar militar que ganha espaço em seu Gabbo.

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Para alguém como ele, nada melhor que um duplo, Otto, o boneco que fala mesmo quando o mestre come ou bebe, quando usa a boca para outra ação. O boneco, seu lado extrovertido, será capaz até mesmo de conquistar uma bela mulher (Betty Compson).

O filme reproduz outra vida como um delírio do próprio Gabbo. Para se separar de tudo o que é mundano sem ainda assim perder o elo com o palco, ele cria Otto, seu lado oculto, seu passaporte ao sucesso. Carrasco, Gabbo só tem Otto, ou apenas si mesmo.

A parte final é extraordinária. Revela-se a miséria, ao mesmo tempo quem é esse homem chegado à grandeza: sem Mary (Compson), Gabbo enlouquece, retorna ao show – que só pode ser encerrado com sua participação, diz ele, pois é o próprio show em pessoa – para gritar contra o público, contra a vida que lhe prega peças.

Gabbo arrasta ou é arrastado por seu boneco de madeira – um de terno branco, o outro de preto. O artista enlouquecido é um monstro solitário fora de um filme de terror – e a ventriloquia serve à perfeição a histórias do tipo, como se veria depois em Na Solidão da Noite e Magia Negra.

Os letreiros da entrada do teatro indicam o espetáculo do “Grande Gabbo” e são retirados por dois funcionários. O protagonista assiste ao próprio fim em um gesto de trabalho corriqueiro, banal, enquanto caminha às sombras, seguido pelo mordomo.

(The Great Gabbo, James Cruze, Erich von Stroheim, 1929)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Gene Wilder (1933–2016)

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