Minha Rainha, de Erich von Stroheim

O sorriso de Gloria Swanson tem algo vampiresco, assustador. Serve melhor à face da mulher malvada, da rainha má, não à Branca de Neve às lágrimas, decidida a se suicidar a certa altura do monumental Minha Rainha, de Erich von Stroheim.

Como boa parte do filme foi perdida, e outra sequer foi filmada, o que restou oferece Swanson como a menina sonhadora, religiosa, que se apaixona pelo príncipe, o noivo da rainha, e mais tarde é obrigada a casar com um daqueles monstros típicos de Stroheim – homem manco saído de um filme expressionista alemão, demônio inegável.

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O material é típico do diretor, e os contornos da história já foram vistos em A Viúva Alegre e Marcha Nupcial. A protagonista, ninguém duvida, tornar-se-á a rainha. A plebeia que se serve da religiosidade, dos sonhos, depois do trono.

No momento em que conhece o príncipe fanfarrão (Walter Byron), em uma estrada pela qual caminha com outras internas de um colégio de freiras, a moça é vítima do riso alheio, incluindo o do príncipe. Uma peça de sua roupa íntima cai sobre seus sapatos. A gargalhada geral faz com que ela, furiosa, lance a mesma peça contra o futuro amante.

A primeira camada que Stroheim deixa ver ao chão é o indicativo de outras que cairão ao longo de seu filme inacabado. É o pedaço da moça supostamente puritana, aqui revelada, sob o riso e a falsa ideia de que o adereço condena-lhe, quando é o oposto.

De novo, Stroheim lança seus pecadores, próximos à metamorfose, aos efeitos da religião: debatem-se à frente de grandes crucifixos, pedem ajuda a Deus, à medida que os atos sempre confrontam os votos. À beira do altar, em oração, Kitty Kelly (Swanson) é recoberta de velas pela mise-en-scène do diretor: envolve-a no pecado, no calor das chamas, nesse intenso redemoinho ao qual já foi condenada.

É justamente o momento que a Norma Desmond de Crepúsculo dos Deuses assiste na companhia do amante, o gigolô interpretado por William Holden, em sua grande mansão habitada por macacos, “bonecos de cera”, com o estofado de décadas anteriores e mordomo que a abastece com cartas (escritas por ele mesmo) a alimentar seu mito – mordomo, nunca é demais lembrar, interpretado pelo próprio Stroheim.

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Billy Wilder, discípulo de Lubitsch e Hawks, nunca escondeu sua admiração por Stroheim. Crepúsculo dos Deuses aborda o velho templo da Hollywood em sua era muda – com Swanson a servir de dama embalsamada, a recordar Minha Rainha, e com o próprio filme para atestar o poder de congelamento do cinema.

Pois Swanson, ou Desmond, incinera o moderno ao qual Wilder, em sua reverberação do passado, parecia apontar: ela explica ao gigolô e roteirista de Holden que os rostos sobreviveram às palavras. “Não precisávamos de diálogos. Tínhamos expressão”, diz.

Algumas fontes indicam que Minha Rainha foi destruído pelo próprio cinema falado. Que Stroheim não teria como refazer tudo em nova estrutura, devido à quantidade de filme já utilizada. Talvez não quisesse erigir outra coisa senão aquilo que conhecia tão bem, a estrutura que lhe serviu. Foi a última demonstração de extravagância do homem que a indústria “amava odiar”, o que se tornou jargão.

As formas do rosto de Swanson foram conservadas: em sua primeira aparição em Crepúsculo dos Deuses, o espectador logo deverá identificar a moça enclausurada entre freiras da obra de Stroheim. Ainda é a mesma, uma escultura da Hollywood clássica.

(Queen Kelly, Erich von Stroheim, 1929)

Nota: ★★★★☆

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