Marcha Nupcial, de Erich von Stroheim

A expressão erótica de Fay Wray levar-lhe-ia, depois, a se tornar o objeto de desejo do gorila mais famoso do cinema: é a bela que conquista a fera em King Kong. No caso de Marcha Nupcial, a certa altura a moça inclina um pouco a cabeça, olha para o futuro amante com dentes sobre os lábios. Deixa ver o desejo pelo homem de farda.

À época, em 1928, talvez uma expressão como essa tenha soado ingênua, fruto de aparente ignorância e, por isso, de descoberta. É que ela não consegue ter outro homem além daquele, o homem fardado pelo qual termina apaixonada.

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E esse homem – falso e pobre conquistador no anterior Esposas Ingênuas, ou, como se vê aqui, um príncipe mulherengo – será sempre o mesmo: Erich von Stroheim.

Com farda branca e impecável, monóculo preso ao músculo da face, rosto de poucas expressões que serviriam perfeitamente a qualquer bandido de poucos tostões fosse o caso – e, como se vê nesses filmes, não é. Marcha Nupcial, a começar pelo título, fala sobre a tragédia dos rituais, sobre o mundo de falsidades que Stroheim adora demolir.

Em uma cena entre tantas, o pai de uma moça manca, candidata à noiva do príncipe, explica que mais vale o dinheiro que possuem, e que seu futuro marido não se importará com seu problema físico. Enquanto conversam, vê-se um grande crucifixo ao fundo.

A imagem religiosa já havia aparecido no anterior e também extraordinário A Viúva Alegre, outros dos filmes de Stroheim sobre pobres humanos ridicularizados pelos contrastes visuais, pela insistência materialista, pelos caprichos, pelo amor fingido.

Stroheim, também o diretor, faz uma personagem apaixonada sem parecer disposta a arriscar tudo pelos sentimentos. O filme termina como se algo ainda fosse ocorrer, com um vácuo, ainda assim perfeito, triste demais. Como se sabe, a obra era mais longa e terminou mutilada pelo estúdio, a exemplo de Ouro e Maldição. E sua continuação, Lua de Mel, foi editada por ninguém menos que Josef von Sternberg.

Para felicidade ou não de Stroheim, Marcha Nupcial termina em estado de graça: não muito diferente de outros de seus filmes, vencem aqui o conluio, o casamento arranjado, a imagem, a impotência dos aristocratas. Uma crítica a esse meio frívolo e falso.

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O ator e cineasta interpreta o príncipe Nicki. Na comemoração de Corpus Christi, em Viena, ele desfila e, entre a multidão, vê a bela Mitzi (Wray). O encanto é mútuo. A câmera, um pouco ao alto, registra o olhar dela voltado a ele, ou para sua farda, sua forma imperial e distante – e ele, em contraplano, observa a bela moça na parte inferior.

Encontram-se, mais de uma vez, sob uma árvore com flores de maçã. E essas flores, em excesso, caem sobre os amantes. Torna-se o local da união, um recanto, o paraíso contra o mundo externo – em algumas das melhoras sequências do filme.

À contramão, ele dirige-se ao casamento arranjado: terá de se unir, por vontade de seus pais, à manca Cecelia Schweisser (Zasu Pitts). Para a tristeza de Mitzi. E, talvez por sua frieza natural, algo ligado à classe e ao estilo dessas relações, o príncipe não deixará explodir todo seu rancor, ao fim, quando a nova companheira fala das flores de maçã.

Sabe-se desse sinal, do que as flores representam ao protagonista. Sua amada, em outro momento, recorre ao local com essas flores, sob a árvore em que se encontravam, mas se depara com o insuportável Schani (Matthew Betz). Açougueiro, ele beija-a à força, em mais uma grande sequência de desespero esculpida por Stroheim.

O homem rude, assassino, pode ter servido de fonte para Jean Renoir compor, mais tarde, alguns de seus rapazes à toa, de maldade encrustada, como se veria em filmes como Toni e Um Dia no Campo. A ligação do francês com o austríaco não se limita à imagem masculina: como sabem seus fãs, ambos dedicaram-se a explorar a derrocada do poder e as orgias de um mundo entre guerras.

(The Wedding March, Erich von Stroheim, 1928)

Nota: ★★★★★

Veja também:
Maridos e Esposas, de Woody Allen

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