Esposas Ingênuas, de Erich von Stroheim

A mudança do Conde Sergius Karamzin é constante. Sua face transforma-se e do suposto bom homem sai um estranho sorriso. É seu flerte com o mal, sua revelação em Esposas Ingênuas: torna-se o aproveitador que deseja conquistar mulheres e ganhar dinheiro.

O diretor Erich von Stroheim também acumula a personagem central. Sua história de linhas simples passa-se em Monte Carlo, Mônaco, onde Sergius e duas primas – ou amantes disfarçadas – arrendaram uma mansão para aplicar golpes.

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Famoso por lutar contra as regras dos estúdios, Stroheim compõe um filme sobre ambição e máscaras. Parte das sequências ocorre em cenários verdadeiros. Em momentos, fica a impressão de que o diretor apropriou-se de verdadeiras multidões, com soldados, gente para todos os lados, para levar a seu filme.

Como se veria depois no extraordinário Ouro e Maldição, homens e mulheres tem o mesmo peso. Por todos os lados, a traição, o desejo, a mistura de diferentes intenções que não suportam o jogo de aparências: o aproveitador e seu terno branco, o cassino improvisado na mansão e seus papéis falsos para enganar os convidados.

Os trapaceiros não se transformam em suas personagens apenas para percorrer ruas, salões e cassinos. Eles vivem sob as formas de suas personagens, inclusive com gestos de gente poderosa, à mesa, também na forma como se dirigem à criada.

É até possível acreditar, em dado momento, nos sentimentos de Sergius, quando fala em seu sobrenome, ou quando lamenta ter de apelar a algumas atitudes para sobreviver. É como se acreditasse em sua própria personagem – parte da construção cruel do diretor.

Ainda que pareça apenas um drama frívolo de idas e vindas, ao qual se acrescenta o sorriso do marido traído, Stroheim constrói sequências que beiram a loucura e não poupa o espectador de tamanho cinismo.

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Ao descobrir, pelo jornal, que Monte Carlo acaba de receber um importante líder americano, Sergius é tentado a conquistar sua mulher. As primas fazem parte de toda sua mentira: enquanto ele lança charme à dama casada, as demais se incumbem de passear com o outro homem, entre pequenos barcos e salões movimentados.

Em uma dessas saídas, Stroheim dá vez à melhor sequência do filme: em meio à tempestade, Sergius carrega a mulher casada (Miss DuPont) pelo rio, até chegar à pequena casa de uma senhora estranha e desdentada.

Passam a noite por ali. Enquanto a mulher dorme, Sergius observa-a como um vampiro próximo a atacar sua vítima, atitude a ser repetida mais tarde, no desfecho. O homem despe-se facilmente da personagem galante e respeitadora.

Nem mesmo a empregada está livre das mentiras de Sergius. Para retirar seu dinheiro, o pouco que economizou com trabalho duro, ele recorre à rápida transformação: cobre a face com as mãos e joga pingos de água na mesa, como se fossem lágrimas.

Não raro, a obra de Stroheim mostra-se aterrorizante: a liberalidade daquele paraíso é apenas uma fachada. Impera o jogo, a interpretação, o jeito do ator central em não ser ninguém senão sua própria personagem, homem dentro de outro, que pode mostrar bravura em alguns momentos e o exato oposto segundos depois.

Quando escala uma casa para abusar da menina deficiente que vive em seu interior, o espectador percebe que Sergius é realmente capaz de tudo. Alguém difícil de classificar, eternizado pelo poder de Stroheim, à sua forma camaleônica.

(Foolish Wives, Erich von Stroheim, 1922)

Nota: ★★★★★

Veja também:
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