Algumas lembranças sobre Erich von Stroheim

Me nocautearam em Hollywood, disse ele com amargura, e ainda estou grogue.

Assim começou nosso primeiro encontro, alguns anos antes da última guerra, em 1936 ou 1937. Eu tinha ido vê-lo junto com Henri Langlois e alguns jornalistas, e me lembro que Stroheim nos fez beber um whisky atrás do outro. Ele parecia ter surgido de um de seus filmes, porque deliberadamente interpretava seu próprio papel. Estávamos muito comovidos de vê-lo em carne e osso e de acordo com sua reputação.

Gostaríamos de ter dinheiro suficiente para permitir que ele realizasse um novo filme. Era a época heroica da Cinemateca, quando Langlois guardava os filmes em seu banheiro, quando sonhávamos em reaver o negativo do filme mexicano de Eisenstein e convidá-lo a vir montar sua obra-prima profanada. Langlois também pensava em recuperar as passagens mutiladas das grandes obras de Stroheim… Mas o que poderia, naquela época, uma Cinemateca emergente?

Assim, nós todos bebíamos muito whisky enquanto o grande Stroheim falava. Segundo um costume seu, dirigia-se apenas a mim, a única mulher presente, mesmo que eu não fosse particularmente fotogênica. Dizia barbaridades sobre o amor e formulava paradoxos muitos atrevidos com a evidente intenção de me embaraçar. Sua maneira de falar era fascinante; eu senti intensamente o charme extraordinário deste homem estranho e magoado, cujos filmes tanto admirávamos. Partimos naquela tarde, Langlois e eu, surpreendidos e felizes de tê-lo encontrado. Tínhamos mesmo a impressão de ter atuado, durante algumas horas, num de seus filmes.

*

Depois da guerra, em nossa pequena sala na Avenida de Messine, Langlois pôde, enfim, mostrar a Stroheim seus filmes despedaçados. Eu estava sentada ao seu lado durante a projeção de Foolish Wives. Ele tinha um poder surpreendente para lembrar-se dos trechos que faltavam.

Aqui, dizia-nos, eu avanço em direção ao espelho, olho-me e pressiono um botão sobre o meu queixo.

Falava sempre de seus papeis dizendo “Eu faria isso ou aquilo”, de tal maneira que os revivia com precisão.

Ficamos emocionados, Mary Meerson, Langlois e eu, quando Stroheim viu Greed pela primeira vez. As lágrimas corriam sobre suas bochechas e nós o escutamos murmurar:

Não é possível, isso é um crime…

Ele nos contava cada cena ausente. Quem dera eu tivesse um gravador para registrar suas falas! Escutávamo-lo ofegante, vendo renascer, pouco a pouco diante de nós, o filme original, e sonhando secretamente em recuperar os fragmentos perdidos, provavelmente abandonados em algum porão ou sótão, onde mofavam.

Lotte H. Eisner, crítica de cinema e historiadora, em artigo publicado na Cahiers du Cinéma (v. XII, n. 72, junho de 1957; o artigo foi publicado na íntegra em Filmologia, em 2013, com tradução de Edson Costa, e pode ser lido aqui). Abaixo, Erich von Stroheim.

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