Um Estranho no Ninho, de Milos Forman

Demora um pouco para R.P. McMurphy descobrir que ser louco não significa negar as regras do sistema. No sanatório ao qual foi enviado, ser louco é justamente o contrário: ter medo das mudanças.

Pois McMurphy deseja-as a todo instante em Um Estranho no Ninho, de Milos Forman. Não serve à prisão ou ao sanatório, um homem de espírito livre que nega qualquer forma de ordem em um tempo de desordem e contestação. Um desajustado.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

estranho no ninho3

Imaginativo, raivoso, engraçado, McMurphy representa o confronto com o sistema; é alguém indecifrável que poderia estar em uma prisão, mas foi classificado como louco e, por isso, levado ao sanatório. Mostra-se malandro, de lábia aguda, ao mesmo tempo estranhamente amável graças aos pedidos por mudança.

Sua chegada deixa um rastro de loucura. E só. Logo sobra um homem aos pedaços, depois com quase a nada, obrigado a imaginar – e narrar – um jogo que não teve a oportunidade de assistir pela pequena televisão. Sua imaginação e seus argumentos serão capazes de confrontar a personificação da ordem e da frieza nos traços da enfermeira Ratched (Louise Fletcher).

O filme estrutura-se nesse embate e Ratched, quase irreal, nem sempre parece ser uma vilã. É calculista, controlada. Seu lado supostamente sádico nunca se revela. Sempre há uma dúvida sobre seus problemas e os problemas do próprio sistema – o que leva a um ou ao outro, ou se ambos não são, na verdade, a mesma coisa.

Quem produz os loucos? É o que Forman questiona, com o roteiro de Lawrence Hauben e Bo Goldman, a partir da obra de Ken Kesey.

McMurphy resiste, luta e, para provar força, tenta arrancar um bebedouro preso ao chão. Nem sempre chega a tanto. É melhor com palavras, com a encenação da loucura, com a fúria que o leva justamente à humanidade. Estranho e cativante.

Ao tentar convencer a todos de que tão importante quanto uma terapia em roda é assistir ao jogo na televisão, ele insiste no fim da rotina. “Dane-se a rotina, voltamos a ela depois.” E pouco antes: “Uma mudança não faz mal, variar um pouco”.

estranho no ninho2

Um Estranho no Ninho utiliza o sanatório como espaço de alienação. A chegada de um homem pode, ou não, mudar tudo. Contestador, o mesmo assusta e instiga os outros. Faz com que se movam, aos poucos, para fora. Pede liberdade, deseja quebrar o vidro para que alguém escape – mesmo que seja um único homem.

A obra de Forman clama por essa fuga. Vê-se, por exemplo, a pequena personagem de Sydney Lassick prender a respiração, forçar o peito, aumentar a própria pressão para depois dizer o que parecia preso.

E diz. Todos dizem alguma coisa em determinado momento. Até mesmo o frágil Billy (Brad Dourif) – torturado pelas palavras de Ratched – tem algo a dizer, pois a palavra, aqui, é a contestação principal ao sistema que produz sonâmbulos, que fala para dentro e, no fim do túnel, apela às técnicas de tortura e apaga a mente de seus internos.

Como McMurphy, Jack Nicholson tem uma interpretação iluminada. Descabela-se para conseguir o que deseja, e quase sempre não consegue. Fala sem parar, às vezes sozinho e às vezes sem saber que o homem ao lado, um grande índio, pode compreendê-lo. Se o homem branco grita sem ser ouvido, nada mais irônico que o índio fechado em si mesmo e, depois, rumo à liberdade.

A raiva do protagonista deixa influências. É o sinal de que nem todos são loucos como parecem em Um Estranho no Ninho. Estão presos às suas próprias regras, vítimas de um sistema branco e frio.

(One Flew Over the Cuckoo’s Nest, Milos Forman, 1975)

Nota: ★★★★★

Veja também:
Sete grandes filmes nem sempre lembrados da Nova Hollywood

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s