A Comunidade, de Thomas Vinterberg

Os dramas da grande casa não escapam à observação da adolescente Freja (Martha Sofie Wallstrøm Hansen). No decorrer de A Comunidade, a menina limita-se a observar a intimidade dos outros, quase nunca a participar por completo desse meio.

Curioso, portanto, que reste a ela uma importante escolha final. Ao mesmo tempo nesse núcleo e fora dele, a jovem vai buscar suas descobertas na rua, fora dali, e parece não ver problema algum em dividir a grande casa com os pais e os amigos destes.

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O filme de Thomas Vinterberg aborda a convivência entre diferentes pessoas sob o mesmo teto, em uma comunidade na qual as decisões são tomadas pelo voto. Questiona o formato da família tradicional e se alinha assim à época que aborda, os anos 70, período de libertação e de contestação das regras vigentes.

Ao adotar uma coadjuvante observadora, silenciosa, às bordas, Vinterberg oferece a possibilidade de não se misturar. Será Freja, a certa altura, a primeira a descobrir a traição do pai, Erik (Ulrich Thomsen), que passa a sair com uma de suas alunas.

Sua mãe, Anna (Trine Dyrholm), é a dona da ideia de trazer outras pessoas à grande casa, de estabelecer uma comunidade, e passa a sofrer com a intimidade revelada, do dia para noite, aos membros do grupo. E, para não perder o marido, ela permite que este leve a nova companheira ao local, ao suposto meio de liberdade e aceitação.

É o preço que se paga ao se deixar tudo às claras: nessa comunidade em que se estabelecem escolhas pelo voto, na qual não se esconde o problema e se coloca o drama à mesa, Anna será a primeira vítima. Despenca aos olhos de todos, inclusive da filha.

Esse desejo de tudo ver, de se lançar à claridade, é evidenciado pelos momentos em que a própria Anna mexe as mãos entre a luz. Primeiro em seu quarto, após o sexo com o marido; depois no estúdio de televisão, pouco antes de entrar no ar, em seu programa.

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Jornalista, ela despe-se ao espectador nesses dois momentos – primeiro com o sexo, depois com as lágrimas. Sucumbe antes ao prazer, aos sentimentos, e logo o espectador entende o impacto da vida a dois, dessa ligação, dessa intimidade.

Com a vida em grupo, na grande casa, ela não será a única a perder: o marido, ainda no início, dá a entender que talvez aquele modelo não seja o melhor. Há sinais de que Erik gostaria de mais atenção da mulher, enquanto ela divide-se entre os outros.

Ao passo que a comunidade não lhe oferece o que esperava (e talvez não tenha mesmo por que oferecer), Erik descobre na jovem aluna uma fuga. Passa então a se encontrar com ela, em momentos de pouca intensidade, de poucos gestos íntimos.

A ideia de um mundo revelado, “sem paredes”, é dada pela fotografia de Jesper Tøffner, pela explosão da claridade, ao mesmo tempo pelo toque de sonho. Não há comunidade perfeita, descobrirá o público. A harmonia é aos poucos quebrada: a antes equilibrada Anna deixa-se ver, deixa escorrer uma lágrima, ao vivo, na televisão.

Sua estrutura vem abaixo. E Dyrholm oferece uma interpretação poderosa, de mutações, a mulher que tenta, até certo ponto, ocultar sentimentos, depois afrontada por eles. Sabe-se muito sobre ela, pouco sobre a filha silenciosa e quase intrusa. A forma como lidam com suas vidas particulares está ao centro do trabalho de Vinterberg.

(Kollektivet, Thomas Vinterberg, 2016)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Longe Deste Insensato Mundo, de Thomas Vinterberg

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