Religiosos e intolerantes

O filho fica assustado quando seu pai, Keller, faz da morte de um cervo, em Os Suspeitos, a oportunidade para celebrar a grandeza do homem branco. O que está em jogo para esse pai, personagem de Hugh Jackman, é a importância de defender seu território, sua família, seus valores, mesmo que isso signifique aderir à violência.

No filme de Denis Villeneuve, Keller e o amigo Franklin (Terrence Howard) têm suas filhas sequestradas em pleno Dia de Ação de Graças. A polícia chega a um suspeito (Paul Dano), o dono do veículo que estava circulando pela pacata vizinhança.

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os-suspeitos

Ao passo que os dias correm, o protagonista perde as esperanças, cansa de esperar por uma ação das autoridades. Sai ele próprio atrás do principal suspeito. Aposta na violência, em um filme que funde a imagem do cervo abatido à oração religiosa.

Em A Caça, de Thomas Vinterberg, o ponto de vista é o da vítima, não o da sociedade intolerante, mas as peças em jogo não diferem muito: o professor Lucas (Mads Mikkelsen) é acusado pelos moradores de sua cidade – incluindo seu círculo de amizades – de ter abusado de uma criança. Sua vida torna-se um inferno.

O fim desemboca na religião: Lucas vê-se no interior de uma igreja, cercado ironicamente por pessoas intolerantes. Nem sempre visual e palavras acompanham ações. O protagonista de A Caça também foi criado segundo a cultura do tiro, de homens que ocupam a floresta para caçar animais. E faz pensar nos camaradas de O Franco Atirador, de Michael Cimino, metalúrgicos de uma pequena cidade americana que lutam no Vietnã. De volta para casa, eles não conseguem mais se socializar.

Os Suspeitos e A Caça abordam a intolerância. Neles, o espírito do caçador contra os “monstros da floresta” ganha relevo. Os vilões permanecem distantes, nem sempre identificados – como se vê no momento em que alguém atira na direção de Lucas.

sobre meninos e lobos

O clima frio e a ausência de vilões estão também em Sobre Meninos e Lobos, de Clint Eastwood, a partir do livro de Dennis Lehane. De novo em tom obscuro, com personagens borradas, sobre um garoto sequestrado na infância e, na vida adulta, transformado no principal suspeito do assassinato da filha de seu amigo.

Interessa menos aos autores dessas obras a abordagem do sequestro ou as acusações de pedofilia e assassinato. Examinam, antes, a fragilidade do grupo e o aparente reconforto da vingança, o “olho por olho, dente por dente” de uma cultura moldada à violência e à oração, ao conforto de uma “justiça” imediata e do possível perdão.

Por isso, o Keller de Hugh Jackman aproxima-se do protagonista de Sobre Meninos e Lobos, Jimmy Markum (Sean Penn). Até certo ponto, é difícil condená-los. O drama torna-os mais palatáveis: são monstros “humanos”, pais de família que não suportam essa sociedade às sombras. São autoritários, caçadores em meio à floresta.

Foto 1: Os Suspeitos
Foto 2: Sobre Meninos e Lobos

Veja também:
A Caça, de Thomas Vinterberg

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